terça-feira, 21 de abril de 2015

O Construcionismo Social – uma Cosmologia coletiva


Cosmologia de William Blake, Zoas.

A educação social, como princípio da formação humana e elemento de evolução permanente, é um ramo do conhecimento que tem sido ainda bastante relegado à intuição e ao ideologismo. Não que estes fatos estejam a priori equivocados, porém mereceriam também estar subordinados (ou apenas “relacionados”) ao universal –e também ao “próprio”, isto é, aos processos localizados de evolução, imunes assim a doutrinações forâneas.
O próprio Socioconstrutivismo de Lev Vigotsky objetivaria ainda o indivíduo antes da consciência social – ou a “consciência coletiva” de Émile Durkheim, por alguns também denominada de “alma coletiva”-, uma vez que o seu foco era a educação elementar.
Construtivismo russo
O Construtivismo trouxe todavia para a educação a libertação do Condutivismo e do “Ideologismo” radical, sobretudo em relação à chamada educação tecnicista ou industrial. Na verdade, não podemos discordar do preceito marxista de que não existe educação neutra ou, no dizer de Paulo Freire, “todo ato de educação é um ato político”. Não há porém qualquer impossibilidade de harmonizar o Construtivismo com o Condutivismo - na verdade, ambos se completam e equilibram necessariamente! Numa linguagem informática, poderíamos dizer que o Condutivismo é hardware e o Construcionismo é software. Melhor ainda, o Construcionismo seria como um sistema operacional e o Condutivismo os programas do usuário.

De fato, o Construtivismo tem tido os seus problemas, acusa-se por exemplo de preparar mal as crianças, até para a “simples” alfabetização. Não se trata de render-se à “educação tecnicista”, porém certos estímulos ou “reforços” (a la Skinner mesmo) também são necessários, nos termos que se faz necessários a cada etapa da educação.
Certamente a força e a influência do coletivo é fundamental para a educação da criança. As “energias” grupos terminam atuando como signos e arquétipos na formação da consciência infantil. E a criança reproduz aquilo com a sua consciência é impressa.
Porém, tal como o indivíduo se forma através as impressões vindas do meio, o meio também se forma mediante as impressões oriundas –de quê? Talvez aqui sim caberia se falar de arquétipos, mas historicamente devemos ter muito em mente a ação de forças superiores, como é a vinda periódica dos mensageiros espirituais. As alusões cósmicas (ou “astrológicas”) figuram apenas como simbólicas e coincidentes em relação a ciclos que no fundo são culturais e “estruturais”.
Tudo isto evoca naturalmente conhecimentos tradicionais, como são o universalia ante rem (“universal antes das coisas”) de Platão. C. G. Jung investigou a relação entre os arquétipos e o inconsciente. Durkheim e Marcel Mauss fizeram estudos sobre a construção coletiva da emoção religiosa, aquilo que nestes meios também se pode chamar de “egrégora”.
Porém, sugerimos a percepção de Claude Levi Strauss, quando diz: “A Astrologia é um Estruturalismo avant la lettre.” Esta frase é importante porque Levi Strauss resgata de certa formas as verdades remotas da astrologia, dentro da formação da consciência, especialmente a coletiva. Contudo, para tratar do tema da educação e também para a formação básica das “estruturas” humanas (seja individual ou coletiva), pensamos que o termo “Cosmologia” seria de maior precisão. A educação básica trata de construir aqueles elementos fundamentais da linguagem e da percepção. A vida adulta seria como um jogo interativo com estes elementos primários, e através dos mais díspares cenários (Cultura, Natureza, etc.), daí a sua riqueza e diversidade. E é neste plano que se desenvolve também o Construcionismo Social.


Construtivismo sulamericano
Algo de nomenclaturas

Construtivismo e Estruturalismo são termos aproximados nas Ciências, divergindo mais por áreas de atuação. Optamos pela palavra Construtivismo (e mais ainda Construcionismo) por soar mais dinâmica do que Estruturalismo, cabendo todavia discernir de outras concepções nominalmente próximas.
Pois com isto não estaremos apelando tanto ao Socioconstrutivismo psicológico de Lev Vygotsky, dedicado à teoria da Educação. E tampouco devemos remeter ao Estruturalismo Social de vertente marxista e sociológica com suas bases economicistas de praxe. Talvez a nossa abordagem esteja mais próxima ao Estruturalismo antropológico de Claude Levi Strauss, com sua abordagem cultural livre, pese podermos sempre contar com as anteriores sem radicalismos.
Construtivismo russo
Comumente vemos fundamentos –por vezes também erros ou parcialidades- em quase todas as teorias que, de resto, não casualmente terminam por se combinar ou relacionar de forma transversal. Fácil é observar como a filosofia e as ciências caminham passo-a-passo, empregando a soma das informações progressivas para avançar, questionar ou acrescentar.
A cultura é um constructio, e nisto os dados emergem como agentes estruturais. Não obstante também existe a desconstrução. Neste sentido o “Estruturalismo Marxista” considera apenas valores parciais e até pretende desconsidera modernamente, à luz de ideias científicas hoje ociosas, certos ramos de atividades não diretamente econômicos, como a religião e a filosofia, como bases das atividades do clero e da aristocracia.
Construtivismo maçônico
É muito importante com efeito o tema da “construção”. A Maçonaria possui esta ideia na base de suas propostas, o maçon é, na origem e por definição, um “obreiro” ou um construtor, mas que passou a assumir a tarefa da reconstrução social e moral. Tal coisa superaria na verdade a ideia das “reformas”: se trata de uma construção nova das coisas, a edificação de uma nova sociedade –ou aquilo que também se pode chamar de “criação” naturalmente. Os mitos genésicos estão prenhes destas ideias sociais, e destes vale destacar os egípcios por sua riqueza e diversidade. A criação do mundo é também a (re)criação social e a adequada organização coletiva, fora isto temos apenas o caos, mesmo que naturalmente disfarçado de ordem para todos os efeitos, uma ordem arbitrária e injusta sob todos os ângulos de visão.


Modelos socioestruturais

Dentro de uma ótica ampla, as ideologias representam por princípio “degraus” de uma escada social ou civilizatória. Como numa escada, estes degraus podem ser subidos ou descidos, a depender sobretudo dos cursos evolutivos das nações ou, antes, dos Continentes.
Tudo isto está claramente presente na observação histórica, e com tal regularidade, métrica e precisão, que permite falar realmente em termos de cosmologia, quiçá de astrologia também, entendida na forma estruturalista dada por Levi Strauss.
Através da observação dos próprios ciclos da História, podemos organizar esquemas e planificar sistemas científicos que permitem antever tendências, à luz de questões “universais” (ou dos “arquétipos” junguianos) como são os célebres “Quatro Elementos” da Alquimia. Na prática, aquilo que temos são estruturas sociais e civilizatórias.
É evidente que, para um ser humano chegar a emergir como ente social pleno, ele deve abrigar na sua consciência as sementes desta socialização. Sabemos que milagres podem acontecer, a consciência pode ser transformada de maneira misteriosa, às vezes para além mesmo da esfera social, uma vez que suas bases estejam colocadas. Também sabemos que os jovens e as crianças podem ser muito protegidos por forças espirituais –uma reprodução daquilo que sucede à própria sociedade através da vinda regular dos sábios, santos e mestres. Naturalmente os cientistas confundem muitos destes epifenômenos com elementos inatos da consciência, os quais são no entanto muito mais reduzidos do que se possa imaginar.


Ainda assim, devemos ter estes casos como excepcionais e não pretender que os “anjos” substituam a educação real, porque isto nunca irá acontecer (isto é importante assinalar ante certas mentalidades new age carente de formação humanista verdadeira, que às vezes parecem achar suficiente oferecer qualquer arremedo de educação, ao invés de investir na cultura social). As energias universais despertam através dos estímulos adequados, tal como a vida de um grão se ativa mediante os elementos naturais que sobre ele incidem. 
Calendário egípcio
As Ciências Socioconstrutivas remontam pois há muito tempo na cultura humana, e comumente elas tem sido apresentadas na forma de calendários. Estes calendários nem sempre obedecem porém a uma uniformidade formal, reflexo direto da própria complexidade do universo, tal como podemos depreende basicamente das estruturas matemáticas. Calendários empregam comumente o valor 12 no seu conjunto, um valor sujeito a diversas divisões: 12, 6,4,3,2 e,1 -entre outras correlações ainda, como de ordem geométrica, etc. Então, todas estas divisões compões subciclos específicos do numeral maior. Estas doutrinas tradicionais podem conferir às ciências estruturalistas modernas, pois, muito aquilo daquilo que lhes falta na prática.
Os ciclos de conjunções
O tempo possui naturalmente diversas escalas de grandezas. E tem sido dividido como sabemos e ciclos para efeitos gerais. Muitas culturas e civilizações tem realizado esta empresa, inclusive com critérios algo distintos. Os ciclos ocidentais derivam basicamente de bases orientais caldaicas e gregas (Ptolomeu), e aqui no Extremo Ocidente existem algumas matemáticas e astrologias semelhantes e outras bem diversas.
Sobre o tema dos calendários sociais, talvez o conhecimento mais difuso seja aquele dos Cronocratores ou os “Senhores do Tempo”, como chamavam os antigos a Júpiter e Saturno, cujas estruturas de conjunções coincidem com diversos ciclos sociais e suas sínteses. A partir da base sinódica (a conjunção básica) de 20 anos (que é o katun maia, base das escalas que integram o sistema paralelo de “Nove Senhores do Tempo” maias), existem ciclos de conjunções nos Quatro Elementos dos signos astrológicos, e aos quais podem ser dados os seguintes significados:

a. Conjunções Primárias (
60 anos) = ciclo geracional
b. Conjunções Secundárias (200 anos) = ciclo social
c. Conjunções Terciárias (800 anos) = ciclo civilizacional


"Onda Encantada" Cronocrator do Brasil
O ciclo geracional primário de 60 anos (muito usado na astrologia chinesa) atende às gerações completas marcando a ação do indivíduo na História, e entra estruturalmente três vezes no ciclo secundário seguinte de 200 anos para fundar, consolidar e transformar os ciclos sociais - basta dizer que até os livros acadêmicos identificam os ciclos sociais históricos do último milênio sobre estas estruturas. Outro vínculo com o calendário maia pode ser tecido aqui através dos baktuns, os ciclos de 400 anos que reúnem, neste caso, os pares de ciclos sociais afins –as “dialéticas históricas”, onde o par burguesia-proletariado representa o viés “materialista” e o par clero-aristocracia corresponde ao aspecto idealista.
Estes ciclos secundários entram, por sua vez, quatro vezes (ou até cinco vezes: existe uma variante cíclica de mil anos) no ciclo terciário de 800 anos para integrar um ciclo sócio formativo completo.

Exemplos históricos

Tanto no Velho Mundo (Europa) como no Novo Mundo (Américas) estes ciclos têm sido verificados com clareza e notoriedade através de fatos históricos e sociais marcantes, com destaque para aqueles de 200 anos, sobre os quais ocorrem mudanças socioculturais importantes através de revoluções sobretudo políticas na Europa (desconstrução social) e de evoluções sobretudo culturais nas Américas (construção social). 


Desconstrução sociocutural euroasiática

Nesta última também existem os ciclos políticos, mas a natureza cultural prevalece, e uma forma notável ocorre através das mudanças das Capitais Federais no Brasil, vindo a se ocupar melhor regiões até então mais ou menos ociosas na grande nação para desenvolver e consolidar os novos ciclos socioculturais.

Evolução sócio-regional brasileira
Todos os outros ciclos também apresentam marcos sociopolíticos notáveis -sem exigir uma exatidão matemática absoluta –não obstante notória- que de resto inexiste em parte alguma no universo. Assim, o ciclo geracional define etapas políticas e culturais do país pautada pela força criativa das gerações, gerando sempre movimentos transformadores.
Vamos pois aos exemplos geracionais brasileiros, dentro dos respectivos ciclos bicentenários sociais: 


a. O 1º ciclo social (“proletário”, capital Salvador, Região Nordeste): a. Descoberta das Américas (1492) e do Brasil (1500); b. Começo da escravidão negra (1550); c. Invasões Holandesas e auge das Entradas e Bandeiras (1630). Temos aqui a ênfase pois na organização do elemento-humano (branco, negro e índio).

b. O 2º ciclo social (“burguês”, capital Rio de Janeiro, Região Sudeste): a. Descoberta do Ouro em Minas Gerais (1693); b. o Tratado de Madri e Guerra guaranítica (1750); c. a Independência (1822); Temos aqui a ênfase na organização das estruturas econômicas (riqueza, fronteiras e autonomia).

c. O 3º ciclo social (“aristocrático”, capital Brasília, Região Centro-Oeste): a. República (1889); b. o “Estado Novo” (1937); c. a chamada “Nova República” (1985, mas que apenas começa realmente a deslanchar em 2003). Temos aqui pois a ênfase na organização da justiça social e dos direitos humanos (militar, político e filosófico).

d. O 4º ciclo social (“religioso”, com capital futura na Região Norte) começará pelo final deste século XXI. Pois como se diz em Ciência, “duas ocorrências é apenas coincidência, mas três ocorrências já é um padrão.”

E com relação ao “grande” (famoso e profético) ciclo milenarista, ele edifica as chamadas Idades Metálicas das civilizações (reunidas no ciclo antropológico-cultural completo de 5 mil anos, a chamada “Era solar”), sujeitas às estruturas sociais. Muitos historiadores e sociólogos tem identificado nisto as transformações das etapas culturais da humanidade, saber:

a. Idade de Ouro: clero (teocracias) = mitologia, religião
b. Idade de Prata: aristocracia (monarquias) = epopéias, lendas
c. Idade de Bronze: aristocracia (repúblicas) = filosofia, protociências
d. Idade de Ferro: proletariado (democracias) = as ciências

Estes ciclos passam com vagar porque, além de serem mais amplos, as estruturas sociais convivem com certa harmonia. O mesmo já não ocorre na Idade do Diamante, responsável pela transição da Era solar, mas onde também existe a construção de uma nova Era através dos seus ciclos sociais.


Resumos

A ideia de ciclo tem base teleológica e circular, remete para objetivos e evoluções: ciclos produzem novos ciclos. Através disto se contempla a integridade e a formação de entidades complexas. Naturalmente se tem em vista modelo de humanidade e projetos-de-nação. A própria ideia de nação se consubstancia, como entidade coletiva para abrigar os potenciais humanos, agilizá-los e apontar para abstrações transcendentes, quiçá personificadas em seres de maior expressão que pontificam aqui e ali onde se aspira pelo todo.
Não há dúvida de que o individualismo apenas encontra o seu verdadeiro papel no seio da coletividade, uma gota separada do oceano está irremediavelmente condenada -cabe apenas fazer com que as águas não se tornem opressivas, e para isto existem recursos. O oposto disto é a luta-de-classes materialista, tácita ou declarada, onde as classes são apenas corporações de interesses individuais, e não mais estágios de uma evolução maior.

O Zodíaco joviano

O calendário social aponta então as tarefas a serem cumpridas pelas gerações dentro de cada ciclo social, tendo em vista a construção do ente coletivo e do corpo civilizatório, resultando naturalmente também na auto-realização dos seres através do cumprimento dos deveres comuns. 
Afinal, o grande objetivo seria aquele mesmo: construir o próprio ser humano, através da edificação da humanidade. Não existe aqui pois somente um desejo ideológico particular. E pode ser considerado uma astrologia dentro de uma cosmologia (3x4). Nada disto é contudo algo passivo: conhecer a matemática e a simbologia nada significa senão acessar indicações e conhecer caminhos a serem trilhados. 
É necessário pois imbuir-se de vontade e caminhar. Uma atitude passiva serviria apenas para colher o carma de cada situação, uma vez que a inação acarreta na atrofia do velho que passa a crescer de forma monstruosa tornando-se altamente destruidor e até imbatível... O esforço criativo é, pois, sempre grande e até sacrificado, mas também recompensador. 
O que nos reserva então o presente momento social? Podemos chamar a isto de “Terceira República” dos guerreiros e também a nona geração. A terceira fase aristocrática consolida a formação desta classe através do aprimoramento da cultura filosófica. Corresponde ao mesmo tempo ao novo ciclo geracional, associado ao signo de Sagitário (nono signo zodiacal). Provavelmente teremos nesta etapa a organização de uma república, senão governada diretamente por filósofos (como prescrevia Platão), mas ao menos por eles aconselhada e orientada.
Para chegar a isto, porém, é preciso dar passos muito consistentes, e felizmente o Brasil representa um país-chave neste processo. A cultura da aristocracia se afirma através das sínteses inclinadas para o espírito, ou seja, é uma cultura de alma. Com isto se sabe valorizar indistintamente a Natureza, a Espiritualidade e a Fraternidade. A chave para isto é a criação de cidades sustentáveis rururbanas, onde finamente se possa implantar todos os paradigmas culturais emergentes e tratar de erradicar através disto as atrofias burguesas e capitalistas.


Ver também 
O paradigma construtivista na Astrologia
Os ciclos katun na história republicana brasileira 
O nacionalismo filosófico: rumo à "Terceira República"

* Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957

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