domingo, 11 de setembro de 2011

Atrofia civilizatória – a Chave tradicional de superação


Nesta data em que se rememora os trágicos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, queremos aproveitar para divulgar as respostas que a Tradição de Sabedoria sempre tem prescrito para solucionar os grandes impasses civilizatórios, e que passam ao largo da violência e do terrorismo, cujas conseqüências apenas podem ser ampliar ainda mais a escalada da violência no mundo.

-------------------------

Atrofia civilizatória é o impasse cultural produzido pela opressão política e o controle ideológico radical, impedindo com que medidas estruturais sanadoras sejam tomadas pelo bem da sociedade e da civilização, e a política seja reduzida a uma mera instância administrativa voltada para as elites e para os interesses econômicos internacionais, sufocando assim a evolução social, cuja esperança nunca ultrapassa a sorte de encontrar alguma brecha fisiológica sempre sujeita a retrocessos.
Toda esta condição abriga facilmente a corrupção e leva as coisas para situações cada vez mais insustentáveis de miséria, ignorância, enfermidade e insegurança. Caracteriza daí a cultura materialista do Kali Yuga e remete ao caos geral, donde produzir os contornos e o sentimento do “fim do mundo”.
Uma das grandes causas da atrofia da civilização, reside no materialismo e na concentração do poder, que tem como instrumento prático o esvaziamento do campo e a aglomeração humana em guetos urbanos. Ao contrário do campo, fonte que é de saúde integral, sobrevivência e liberdade para o trabalhador, a cidade nunca oferece a melhor solução para o homem simples, que tende a encontrar ali a marginalização e a exploração econômica. A cidade é elitista e facilmente se desumaniza, crescendo em excesso e sufocando os espaços naturais.
A vida artificial também representa um fermento direto para o hedonismo e para o consumismo, donde a degeneração moral e a cultura do desperdício como as facetas mais notórias da decadência civilizatória. Ademais, estas tendências mórbidas geram reações (também) radicais internas, da parte daqueles que se sente moral ou economicamente afetados, e então a oposição se instaura de vez no seio da sociedade. Afinal, este é o império do tédio, da máquina, da feiúra e da rivalidade. Daí que, por mais que os homens deste tempo possam ou não apreciar este mundo, não temos a mínima dúvida de que os homens de outros tempos, do passado e do futuro, concordarão com René Guenón ao dizer que um dia este nosso tempo –com toda a sua liberdade para destruir a Natureza, explorar o próximo e desrespeitar a Deus- será considerado sem dúvidas o mais tenebroso de toda a História humana...
A atrofia civilizatória costuma estar relacionada ao domínio dos impérios mundiais, que lançam os seus tentáculos a todas as partes e buscam controlar todos os passos das pessoas, como o “Big Brother” de Orson Welles. Neste sentido, a ação dos inimigos é usada para acirrar ainda mais o controle. Podemos ver isto nas conseqüências dos atentados de 11 de Setembro, pois a partir de então ficou mais fácil violar o estado de direito em toda parte, guerras foram declaradas sem qualquer justificativa real e pessoas foram presas de forma perpétua sob a mais vaga suspeita.
A derrubada de um sistema de tal magnitude é coisa muito complicada e demorada, pois exige que ele se deteriore internamente. Ora, o Império Romano tardou mais de quatro séculos para ruir depois da vinda do Cristo, quando começou a sua decadência através da deificação dos imperadores. Mesmo assim, ele se transladou para o Oriente e se reergueu cristianizado, mas isto já não representou um problema e sim uma solução, graças ao grande trabalho realizado pelos cristãos nos séculos anteriores.
Nisto está, pois, a grande chave para a atrofia civilizatória, que é a cultura alternativa organizada, ou o cultivo de novos valores e conhecimentos, visando fazer avançar o trato social, através de medidas não-violentas e não-confrontantes. Os métodos de ahimsa e de satyagraha de Gandhi podem ser utilizados com sucesso a depender do contexto, porém é possível ser ainda mais sutil e fincar raízes profundas na cultura, através do êxodo urbano organizado e do fomento do comunitarismo rural, sob uma orientação espiritual e civilizatória renovadora que vise resgatar os valores da Alma e apontar novas metas de evolução para o ser humano.
Muita coisa tem sido tentada, para abalar o pesado arcabouço do sistema. No meio judaico, os zelotes resistiram e se rebelaram contra Roma na época de Jesus, o papel de Judas se destacava nisto e o povo preferiu crucificar o Cristo ao líder político. Contudo, a resistência judaica foi exterminada no ano 70, e o Cristianismo terminaria com o tempo por controlar e restaurar o Império.
Para aquele mundo dominado pela violência, os valores do Cristianismo representaram uma grande revolução. Porém, o Cristianismo também se difundiu em muitas frentes, basicamente em Roma, no Egito e na Turquia, e quando o Império romano do Ocidente ruiu, ele pode se reestruturar graças à base das comunidades cristãs do Oriente.
Passados muitos séculos, na Alta Idade Média, a própria Igreja chegou a forjar uma imagem de Império sagrado, tendo o Papa na cabeça da Igreja e controlando as monarquias européias, graça ao trabalho de base das ordens e dos mosteiros. Nisto, logo o poder levou a corrupção à Igreja, e veio São Francisco para restaurar a luz do cristianismo. Suas ordens e mosteiros, deram novo vigor a uma Igreja cada vez mais contestada, num mundo em mudança sob as Cruzadas.
O Buda também chegou num momento de forte cristalização social, que o levou até a imaginar ser difícil difundir ali a sua doutrina. Então Brahma surgiu e lhe recomendou abrir espaço para o dharma, justamente através da reforma social. Com isto o Buda passou a dar uma grande ênfase nas comunidades ou na sangha, para através disto influenciar a sociedade circundante. Não casualmente, o mestre se dirigiu para o Sul do subcontinente, que é a região mais quente do país, onde se concentrava a herança drávida e o povo mais simples e trabalhador, onde tiveram início assim as primeiras comunidades budistas. A partir dali, é que o Budismo realmente passou a se irradiar para toda a Índia, assim como para as outras regiões da Ásia. Passados alguns séculos, o Budismo se tornou uma religião-de-Estado com Asokha (273-232 a.C.), o terceiro rei da Dinastia Maurya.
Em nossos tempos, tem havido o fomento de uma cultura outsider, de forma natural e instintiva, gerada não casualmente a partir do próprio seio do império, mas não apenas porque ali existe mais liberdade e recursos, mas porque as pessoas se sentem oprimidas pelo próprio peso do sistema e as incertezas que ele tem produzido num plano maior. Na sua melhor vertente, estas buscas têm levado a uma experimentação comunitária, mais ou menos influenciada pelo orientalismo e outras formas exóticas de experimentar a vida. Embora sutil e incipiente, como são todas as novas brotações, muita coisa tem sido alcançada através disto, ao menos no plano das idéias e das experiências internas. Enquanto isto, o sistema avança degradando a tudo, criando também resistências contra as suas engrenagens.
Num quadro assim, de decadência e de final de ciclo, costuma acontecer uma grande Revelação, ou uma manifestação divina, que é sinal para o começo real das mudanças. Assim, à sua maneira, a Revelação também tem uma atuação política, porém de forma mais sistemática, através da cultura e da mudança do coração do homem. A Revelação concentra então no seu entorno as melhores forças de reconstrução, porque esta é realmente a sua essência.

Causas e solução da atrofia sócio-cultural

Dizem os estrategistas que um tirano deve separar para dominar, porém ao afastar o homem da terra, cria-se a mais poderosa forma de dependência, pois todos passam a depender do sistema e das estruturas administrativas centralizadas. Nas cidades, o homem simples apenas pode ocupar espaços menores ou cair na marginalidade. Por isto, para reverter a atrofia sócio-cultural, a primeira medida prática é preservar e fomentar a cultura campesina, fonte de saúde integral e autonomia financeira.
Porém, tal coisa não pode ser feita de qualquer maneira, simplista e superficial, mas da forma correta, complexa e multinível. Até o “sistema” pode conceber as suas simulações de reforma agrária, como tentou realizar a Ditadura Militar quando quis avançar sobre as vastidões amazônicas oferecendo propriedades rurais aos interessados, de uma forma todavia não-sustentável em todos os sentidos: ambiental, social e econômico, servindo apenas para destruir a Natureza, lançar mão-de-obra barata na região e sujeita à falta de estrutura e à grilagem, além de esvaziar a causa da reforma agrária.
Ora a verdadeira refundação do mundo, deve atender certas premissas para de fato funcionar. Não se trata de meramente “ir para a terra”, mas sim atuar de forma organizada, coletiva e direcionada; sob pena de fracasso por falta de consciência, iniciativa e apoio. A união e o apoio mútuo é fundamental no começo das coisas, assim como em todos os esforços concentrados que se façam necessários, donde o fomento na idéia da comunidade-de-base, eventualmente de traços comunistas e sem propriedade privada –especialmente quando envolve os religiosos-, ou pelo menos contando com um estreito sistema de atuação conjunta e de comunicação em todas as áreas. Se todos os interessados não puderem participar disto num primeiro momento, que seja possível logo em seguida. Às vezes, uma comunidade pioneira deve priorizar as pessoas em condições de trabalho no seu começo. Mas o sucesso indica também que ela pode sustentar os seus idosos e as crianças. Deve-se respeitar a experiência dos mais velhos e ter devoção pelas crianças, a quem devem ser ensinadas as novas verdades da evolução, elas que podem dar o passo adiante na vivência de uma realidade maior e mais bela, sempre que forem amadas e bem orientadas. E nisto, a hierarquia natural também deve ser observada, fundada na experiência e na dedicação, tal como Jesus ensinou de que “o maior de vós seja o melhor servidor”.
Para isto tudo, tampouco basta a medida materialista, porque ela não se sustenta por si só. Não existe uma “comunidade natural” sólida, sem a dimensão transcendental da vida. Necessita haver ao mesmo tempo, pois, o suporte espiritual que apenas as ordens espirituais ou religiosas podem conferir. As ordens reunirão em si as pessoas mais capacitadas, concentrando a seara da consciência da qual todas as coisas podem brotar, formando assim os contingentes de lideranças. Então, para aqueles que desejam conhecer Deus na sua intimidade e fomentar a verdadeira Comunidade do Mundo, cabe esta palavra de que além de orar, meditar e trabalhar, cabe comungar e revelar o conhecimento de Deus, para que ele se torne algo realmente sólido e universal, dentro e fora de cada um. E é isto que acontece quando sucede uma Revelação, cujas bases sociais mais sólidas desabrocham no meio rural, onde o ser humano sempre é mais livre, mesmo quando sujeito à carga dos impostos. Pois uma doutrina baseada na compaixão, na salvação e na redenção humana, deve estar amparada por um amplo espírito de missão.

Um resumo

Eis, pois, em suma, aquilo que pode ou deve realmente ser feito nestes momentos, especialmente quando se recebe uma revelação maior de ordem racial. Construir uma sementeira para o futuro, mas uma sementeira robusta, bem protegida e com boas sementes –boa consciência, crianças sadias-, num lugar defendido, um único local de início para não dispersar, mas que depois vai se multiplicando como as tribos e as colméias. Não falamos de pequenos grupos, porque o tamanho faz diferença. E ali começar um trabalho muito consciente, com as melhores informações, síntese de arte-ciência-filosofia-didática. Numa única geração, é possível começar a mudar o mundo, ao menos em algumas partes. E na medida em que a velha Ordem entre no caos, estas novas consciências vão se colocando cada vez mais. O êxodo é orgânico, sugere focalizar um povo numa só comuna que depois vai se alastrando, como as colméias e as tribos. Nada melhor que imitar a Natureza...
Não se está com isto inventando nada: a fórmula é universal e tem sido provada um sem-número-de-vezes. Portanto isto é possível ser feito, e saber disto hoje já representa uma grande coisa, já que o caos não pode ser detido antes de haver começado. As pessoas precisam descobrir que precisam mudar, e quando elas buscarem respostas, é importante que possam encontrar os caminhos.
Cabe então mirar a acertar o alvo: “ação correta”, eis a questão. Não há mesmo outro caminho, senão o de sermos Jardineiros de Luz. Semear as idéias corretas pelo mundo já é um começo, e quando os trabalhadores da luz forem realmente “por a mão na massa”, será também com as massas humanas que atuarão, superando o elitismo exagerado dos místicos e dos intelectuais, levando ensinamentos seguros e profundos a todos que estiverem abertos ao Caminho verdadeiro, que nunca é de todo novo, mas que se redescobre como um tesouro de brilho eterno, ocultado pela areia dos séculos.
Isto, para termos respostas consequentes e coerentes, afinal é um todo que se necessita, inclusive, -veja bem-, a própria institucionalização da iluminação, que é uma possibilidade que recém agora se abre para a humanidade, isto é, a administração regular deste processo, porque aumentar cada vez mais a energia espiritual é, além de levar a salvação final aos próprios iniciados, também uma forma impessoal de ajudar todas as outras pessoas a enxergar melhor as coisas. O mundo que está chegando, vai necessitar conhecer e dominar a energia sutil para realizar a sua cura espiritual, quando a medicina já não poderá dar respostas aos tormentos que virão. As pessoas inclusive quererão garantias palpáveis sobre os caminhos da imortalidade há muito prometidos, para poderem voltar a ter fé e se mobilizar em torno da luz. É preciso poder oferecer estes novos recursos à humanidade, e de uma forma extremamente consistente e científica, capaz de convencer muita gente e até de inibir com suas evidências próprias as ações dos céticos, dos opositores e dos conservadores. Somente assim poderemos começar a ter esperanças.
Nisto pode estar a força anunciada das novas Revelações. Cada um que leva uma pequena luz hoje em dia, deve buscar somar à luz do outro, para assim se ter um clarão realmente capaz de iluminar. No entanto, a luz dos Ensinamentos também é uma luz coletiva, daí a sua força inerente. Os Mensageiros colhem e somam informações, alcançando formular sínteses que a humanidade não pode realizar por sua desunião interna, movida pelas diferenças naturais. Assim, os grandes Ensinamentos representam também uma semente da unidade humana, direcionada porém para a verdadeira evolução.
Este é o convite que está estendido a todas as pessoas realmente conscientes desta época. Que cada um apresente os seus sonhos numa roda, e quem sabe somando tudo se chegue por fim a algo. Porém, o bom sonhador também será u
m realizador.

Um comentário: