terça-feira, 14 de outubro de 2014

Eco-vilas: avanço ou retrocesso alternativo?

                                       por Luís A. W. Salvi, filósofo e escritor
Devemos refletir sobre a mudança de paradigmas do Movimento Alternativo ocorrido na virada do milênio, onde o enfoque social de “comunidades” foi subitamente trocado pela face ambiental de “eco-vilas” mais ou menos sofisticadas, e ainda sob certa matriz material porquanto quase sempre demanda recursos financeiros para aquisição de lotes e casas. Devemos pensar que muita gente que antes era jovem, pobre e idealista, mudou suas ideias depois que acumulou recursos ou herdou bens-de-família? Se for assim seria algo lamentável e incoerente... porque responsabilidade social não deve ser assunto apenas de Governos constituídos, e nisto entra certa maturação da Filosofia Alternativa como algo mais do que simples carpe diem (“aproveitar o momento”) a que tem sido muitas vezes reduzida...
Não é apenas porque algumas pessoas tiveram recursos para adquirir terras e formar eco-vilas, que estas estruturas devam deixar de lado a sua função social. Pelo contrário, em muitos momentos da História, os novos modelos sociais foram alcançados também através da conversão de recursos privados em bens públicos, quando talvez nem houvesse outra forma de conquistar isto mas foi feito graças à generosidade e à visão ampla de alguns.
Verdade que nas décadas anteriores era comum a figura do “patrão alternativo” na falsa-comunidade, mas isto nem importava tanto para muita gente, porque de todo modo havia o convívio, a Natureza e a espiritualidade. Alguém dirá que tudo isto poderá permanecer nas Eco-Vilas; porém estas costumam fechar as portas para quem, por qualquer razão (inclusive por ser muito jovem), não possui recursos mesmo se dispondo a trabalhar.
Ora, o primeiro valor econômico do ser humano deve ser o próprio trabalho, muito acima do dinheiro e da posse. Porém, quando as eco-vilas acatam alguém pelo trabalho, recebendo estas pessoas em locais muito humildes, corre-se o risco deste trabalhador assumir certa função de empregado sem direitos iguais aos dos “investidores”, e com isto gerar classes sociais de forma ainda mais escancarada -o que ao fim e ao cabo parece estar se revelando quase uma inevitabilidade! Os proprietários, por sua vez, devem tomar cuidado contra as ações trabalhistas que tem surgido nestes meios; e no fim tudo isto acaba se tornando deveras comum...
Definitivamente, poderá se estar criando apenas mais uma estrutura burguesa, “verde”, é certo, porém muita desta “tecnologia verde” mais sofisticada também possui um alto custo social e ambiental, empregando materiais extraídos de minas devastadoras e com trabalho escravo mundo afora.
Seja como for, uma das sugestões é que as eco-vilas aperfeiçoem os seus contratos internos e suas estruturas para ter ao menos uma casa comunitária para receber pessoas sem recursos. Será um investimento social alternativo, dando oportunidades para pessoas afins e evitando tratar com pessoas estranhas ao meio que vem apenas pelo dinheiro, pois sempre será importante para os aspirantes ter esta experiência e aprendizado.
Ademais, também será importante contar com meios para o crescimento social, pessoal e econômico do novo membro. Quando esta pessoa resolver se fixar e constituir família, ela deve receber um lote e sua casa deverá construída através de um mutirão. Isto não significa que ela já se torne uma proprietária - na verdade, a própria ideia de “propriedade” poderia ser posta em questão nas eco-vilas, e com isto sim se estaria caminhando para um estágio sócio-cultural mais maduro, harmônico e universal.
Certo caráter “autoral” do Movimento Alternativo tem movido as coisas numa direção particular. Contudo, a grande questão está em fazer realmente avançar este quadro no rumo do cooperativismo e da socialização, como veremos a seguir.

Cultura Alternativa: hora de fazer avançar!

As comunidades malograram porque estavam muito influenciadas pelo espírito anarco-individualista, com isto elas se isolaram do mundo através de seus próprios preconceitos. Eram comunidades fechadas, mais lunares do que solares, não raro de caráter experimental e movidas a muita droga. Quando o paraíso se foca muito no interior de cada um, o exterior (social, ambiental) reduz a sua importância, e nisto os adeptos das drogas imitam os religiosos transcendentalistas. Porém, é preciso buscar ao menos um equilíbrio, para que as coisas realmente prosperem, regulando, disciplinando e diversificando as práticas de cada qual com as necessidades de todos.
As pessoas muitas vezes ignoram a importância de refletir sobre estruturas, no caso, estruturas materiais como base para estruturas sociais. Observando a história humana, veremos que muitas vezes as melhores soluções foram realmente comunitárias com base na cooperação.
Locais simples e similares para todos, “compensados” pelas riquezas mais verdadeiras da vida que são a fraternidade, a espiritualidade e a Natureza...

Para que a Cultura Alternativa tenha força, é necessário organizar os ambientes coletivos; e como cabe visar hoje bastante gente para que novos valores prosperem na humanidade, somos forçados a pensar em verdadeiras cidades ambientalistas, e que ainda se multipliquem como células para não apenas crescer como um tumor feito as monstrópolis capitalistas que todos conhecemos. E que naturalmente podem começar através de simples eco-vilas, com pessoas que tenham a saudável aspiração de incluir movimentos sociais visando uma efetiva mudança dos modelos culturais vigentes.
E com isto, nós realmente entramos nos trilhos da recriação da História, porque assim se fez e se fará sempre, desaguando não raro inclusive nas Idades de Ouro da humanidade... Porém, neste caso cabe investigar muito bem as estruturas sociais e culturais que tem permitido chegar a isto, as quais certamente se pautam pela generosidade, experiência, previdência e espírito holístico.
A diversidade-na-unidade esteve sempre em pauta e, com isto, o respeito à vocação e à evolução de cada um. Cidades permitem e demandam esta riqueza sócio-cultural, sendo natural contar com categorias sociais especializadas (transitórias ou não, de livre-escolha), coisa positiva quando fundada numa vocação.
A anarco-presunção de “todo mundo fazer de tudo” resultou apenas em que “ninguém quer fazer mais nada”. O mais correto seria destinar tarefas, de modo que se alguém ainda não faz aquilo que ama, que ao menos possa amar aquilo que faz, graça ao ambiente fraterno e acolhedor que o cerca e ao espírito de serviço que inspira a todos.

Enfim, o aprendizado é longo mas necessário, e os caminhos para o futuro estão se abrindo.

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