quarta-feira, 15 de abril de 2015

O anarco-barbarismo e a Queda do Império Romano



O anarquismo se fez presente como um elemento transformador e inovador da cultura em muitos momentos importantes da humanidade, além de representar um fundamento da sociedade humana através daqueles períodos imemoriais em que o ser humano viveu sem Estado nem Igreja constituída.
Não foram raras as ocasiões em que os “bárbaros” desconstruíram as civilizações em todo o mundo, como nos famosos ataques mongóis à China ou ao coração da Europa que fizeram os hunos, ou abandonaram como fizeram os maias quando sepultaram suas cidades. Muitas vezes porém eles também reformaram sociedades decadentes dando-lhes um novo impulso, como sucedeu com os toltecas no planalto mexicano. Seriam medidas adequadas a cada momento histórico e segundo as necessidades da hora.
Talvez um dos episódios mais marcantes de atuação anarquista tenha ocorrido na Queda do Império Romano.* Todos que não pertencessem à cultura grega já eram chamados “bárbaros” (embora nem sempre fossem barbados) e Roma assimilou este conceito; ainda que houvesse bárbaros altamente ilustrados. Desde a sua república Roma se pretendia porta-voz da Civilização, com a missão de difundir pelo mundo a sua cultura e escravizar os povos “atrasados” e aniquilar os mais irredutíveis, enriquecendo e dominando piamente em nome da Civilização (algo que nos soa até muito familiar na atualidade...).
As razões da queda do império romano foram muitas. Entre as principais acham-se crises internas, corrupção e inflação, baixa produtividade, conflitos sociais e as pressões morais do Cristianismo. Ademais Roma havia se sujeitado a todos os tipos imagináveis de delírios e praticado todas as formas possíveis de opressão. A revolta dos escravos em 71 d.C. sob o comando de Espártaco, mostrou porém que as coisas realmente começavam a mudar.
Este cenário oportunizou que os povos bárbaros periféricos há muito oprimidos pudessem aumentar as suas pressões sobre o império bloqueando as rotas comerciais e acelerando a sua queda, além de serem impulsionados em direção a Roma por povos orientais ainda mais bárbaros. Há tempos já os germânicos mantinham relações com Roma, estando familiarizados com as estruturas do império.**

A formação da Idade Média

Uma vez decaído o império e Roma invadida, os bárbaros simplesmente não permitiram o reerguimento do Estado romano na Europa, e o Imperador que teve que se deslocar para o Oriente para dar origem ao Império Bizantino.
Naquela nova ordem ocidental já não haveria exércitos mercenários ou moeda circulando, a nobreza não defendia um Estado centralizado e sim uma região e uma cultura. A burguesia seria reduzida quase a pequenas atividades de subsistência com bem pouca margem para o enriquecimento. O despojamento espiritual era estimulado e o meio-ambiente preservado, a Alta Cultura porém estava acessível a quem a procurasse onde era o seu lugar, de resto havia uma rica cultura popular.
O combate ao imperialismo era uma grande causa, e por vários séculos as coisas se mantiveram assim na Europa. Chamam este período de “Idade das Trevas”, mas alguns falam sobre “Mil anos de amor”.*** Ali a fé e a devoção germinaram, e a cultura universal aos poucos foi sendo resgatada e renovada.
Nesta descentralização do Estado houve espaço para a organização da Igreja, uma aliada de primeira hora dos povos oprimidos e como elo civilizador. Os padres conheciam muito bem as instituições romanas, suas virtudes e debilidades. A Igreja já tinha acumulado experiência na Palestina, na Ásia Menor, na África e na Europa.
A tradições dos padres do deserto e o monacato eram fortes naqueles primeiros tempos. A igreja tampouco tinha sede de civilização. Se buscou viver um Cristianismo tão puro quanto possível, sem ênfase nas riquezas, na luxúria ou na ostentação. A memória das primeiras comunidades cristãs ainda era forte e os monges se dedicavam a instruir e orientar a população rural. 
As terras que os bárbaros ocuparam com feudos, foi em grande parte apenas a recuperação de suas próprias terras, às vezes os territórios de outros bárbaros extintos ou removidos. Naturalmente, a Igreja recebeu o seu quinhão de tudo, penetrando em todos os feudos e aldeias a fim de levar a sua orientação.
O feudalismo -um regime praticamente universalizado então- foi um misto de cultura romana com o tribalismo bárbaro, entremeado pela nova fé revolucionária. Os bárbaros tomaram das instituições de Roma aquilo que lhes importava ou que parecia mais útil. Os reis cristianizados pertenciam às antigas dinastias bárbaras. Tal como os imperadores distribuíam terras entre os seus generais e legionários, os reis tribais fizeram o mesmo entre os seus nobres. A administração da terra pelos nobres era importante por serem eles guerreiros disciplinados e admiradores da cultura superior, preservando assim a integridade da ordem natural. Plebeus que enriqueceram com serviços também puderam se tornar cavaleiros.
Muitos romanos também estavam integrados a este processo. Patrícios, plebeus ricos camponeses costumavam ter terras em Roma: vilas, quintas. Contudo os nobres feudais não se tornaram ex-soldados, patrícios num Senado, plebeus ricos ou fazendeiros. Eles seguiram como guerreiros, e organizaram pequenas sociedades autônomas com diversidade social.
E assim as coisas permaneceram até o final da Idade Média, quando novas acomodações culturais fizeram da aristocracia uma classe ociosa e onerosa para a sociedade, em parte resgatando o espírito do patriciado romano.

Resgatando a História

A História precisa ser reescrita, a verdade deve ser restaurada. Para cada verdade que existem nos livros oficiais também existem dez mentiras e outras cem omissões (mas esta é apenas uma estimativa ou até uma figura-de-linguagem). Como disse Napoleão Bonaparte, “a História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo.”
A historiografia burguesa e materialista ainda gosta de mostrar a nobreza e o clero como exploradores do trabalho do camponês, o que pode até ter havido e sob certas circunstâncias, especialmente na Baixa Idade Média quando as instituições cresceram recuperando o Estado, para tudo logo começar a se extinguir sob a opressão e a corrupção. No mais se trata de simples depreciação ideológica, buscando deslegitimar as atividades das classes então dirigentes e voltadas para valores que o positivismo tentou desbancar, coisa que o avanço da Ciência já não permite mais.

De fato, podemos facilmente imaginar o grau de distorção desta crítica, quando sabemos que sua origem advém de ideologias para as quais a aristocracia e o clero não passam de classes ociosas e supersticiosas! O rigor da crítica burguesa ao passado é mais que suspeita, é altamente oportunista; da mesma forma como é hipócrita o discurso xenófobo sobre povos que se pretende escravizar.
Na verdade havia uma divisão natural de tarefas e o reconhecimento de todas as atividades culturais. Existia uma troca justa de serviços em todas as dimensões, onde todos realizavam as tarefas que lhe tocavam.
Caso as coisas estivessem tão ruins, dificilmente elas teriam permanecido tão estáveis por séculos a fio. A verdade é que os próprios bárbaros endossaram aquela ordem, adaptando certas instituições romanas e acatando um cristianismo que prometia a renovação da civilização.
Com o passar dos séculos o poder foi sendo reorganizado. A cobiça e o fanatismo da Igreja não se fizeram tardar promovendo as Cruzadas e a Inquisição, alianças espúrias e traições, resultando no Protestantismo e na reação dos movimentos científicos. O mundo começaria a mudar uma vez mais e a seu tempo o anarquismo seria conceitualizado.
Hoje o anarquismo é tratado como utopia, talvez por sofrer influência de algumas ideias mal-formadas, como a pretensão da anulação total das classes sociais, quando o válido seria apenas erradicar privilégios artificiais.
A promessa anarquista tem sido porém grande através da atuação moderada e autonomista. Aquela nova ordem (ou semi-ordem) apenas foi possível em função da organização própria das sociedades bárbaras em tribos autônomas, capaz de resistir aos avanços de Roma e se sustentar as investidas contra o Império.
Quando não existe esta condição, de pouco adianta permanecer no seio da velha ordem realizando gestos simbólicos de protesto e lutando por migalhas. Neste caso o melhor caminho será o abandono do sistema, e a restruturação da autonomia econômica no meio rural ou pela criação de novas cidades rururbanas auto-sustentáveis. Os elos com o velho sistema devem porém permanecer, talvez não de forma revolucionária e sim evolutiva, já que o Império Romano apenas caiu por pressões a um só tempo internas e exteriores.
A dialética barbárie-civilização representa um dos grandes resgates a serem realizados em nossos tempos, para além de outras mais superficiais e apenas materialistas já em desuso.**** Uma das forças sociais emergentes é o multiculturalismo, o qual traz este tipo de ótica autonomista originária, e por cujas lentes a humanidade deve reprender a olhar o mundo a fim de simplesmente sobreviver e quiçá resgatar os seus elos com as outras dimensões da vida.

* Alguns quererão dizer não encontrar anarquismo dogmático ou ipsis litteris neste texto. Deveriam contudo saber que, tal como o socialismo é uma simples “leitura-de-época” de princípios tradicionais como a solidariedade e a fraternidade, o anarquismo (uma doutrina com correntes e aplicações quase infindáveis) também representa uma “roupagem de época” em relação a ideias emancipatórias e alternativas tradicionais como a autonomia e o autodidatismo (mesmo religiões e doutrinas esotéricas ou espirituais admitem a imutabilidade dos fundamentos e as mudanças de abordagens). A vantagem do socialismo é que, dado pretender buscar a praxis, alcançou colocar em prática muitas das suas ideias, apenas para ver que “na prática a teoria é outra”. Muitos dogmas ou postulados do século XIX hoje caem por terra forçosamente, e se vivessem hoje os grandes teóricos anarquistas teriam outras ideias, ênfases e opções, como de fato costumam ocorrer, adaptando-se e quiçá variando as suas estratégias ou optando pelas propostas mais viáveis. Quem se atém basicamente às ideias fundamentais (“fundamentalismo”) das filosofias são apenas os teóricos e os novatos, assim como os simplórios, os demagogos e os desequlibrados gerando alimento para o fanatismo.
** Para uma visão atualizada sobre os acontecimentos das invasões e as culturas bárbaras (que ocorreram na Europa por 2.500 anos), ver esta página.
*** Ver a "A Dramática História Da Fé Cristã", de Cf, J. J. Van Der Leeuw.
**** Talvez alguns até estejam querendo ver isto ocorrer hoje através destes novos ciclos de confrontos entre o Ocidente e o Islã, o que seria uma das razões de grupos radicais atrair tantos ocidentais. Contudo este Islã fundamentalista que enfrenta o Ocidente já não é aquele mesmo que deslumbrou o mundo nas Cruzadas, movendo a roda da civilização universal e ajudando a tirar o Ocidente da sua Idade Média -com as virtudes e as mazelas que isto possa acarretar. O Islã fundamentalista almeja reverter este processo, porém de uma forma extremamente radical, cruel e tragicamente iconoclasta.


* Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
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