sábado, 4 de abril de 2015

O espírito aristocrático indígena e os novos rumos da Nação



A cultura sempre deve caminhar ao lado da sociedade para lhe oferecer esteios sólidos e seguros. A cultura do espírito é parte essencial da evolução social, e esta subordinação não pode se dar ao luxo de ser invertida (como acontece hoje na Europa) sem que antes a própria cultura esteja bem sedimentada, sob pena de jamais termos uma sociedade soberana e realmente organizada.
Uma característica profunda dos índios amazônicos era a sua repulsa pelo trabalho na terra –falamos dos homens naturalmente, já que às mulheres era dado realizar esta tarefa-, preservando assim seja os primitivos valores do paleolítico, como também uma aristocracia guerreira que não distava daquilo que existiu em várias outras partes do mundo.
O “tabu” contra o trabalho agrícola –quiçá um primitivo dogma naturalista-, era inculcado na mente dos jovens indígenas e nada mais lhes fazia mudar de ideia. A privação do trabalho masculino não permitiria a transformação do meio ambiente pela proliferação da agricultura. Neste sentido, diferiam mais das sociedades circundantes ditas “civilizadas” dos Andes e de Meso-América, aproximando-se porém dos indígenas norte-americanos. Também por isto, e ao contrário das culturas civilizadas, a sociedade silvícola e tribal se manteve estável e praticamente inalterada através dos milênios...
Os índios cedo compreenderam que a manutenção do seu modus vivendi dependia da condição guerreira. No Paleolítico a luta pela vida era cotidiana, a disputa por espaços vitais era acirrada e se estendia aos animais. Avançaram para o Neolítico quando assimilaram alguns rudimentos agrícolas domesticando muitas plantas, mas nunca domesticaram realmente animais, com os quais mantinham antes uma relação mágica ou religiosa, apesar de caçarem várias espécies para diferentes finalidades.
Pode ser avaliada a presença ocasional da monarquia primitiva nas sociedades indígenas: “(o) tuxaua (é um) chefe guerreiro, cargo a que tinha direitos hereditários” (Darcy Ribeiro, sobre os bororos que ilustram o seu romance “Maíra”), e tanto mais nas tribos africanas e entre os povos bárbaros da Europa que depois foram cristianizados. Este regime avançou nos Andes e na Meso-América, e entre os Incas se verificou certo “socialismo aristocrático”.
Nas reduzidas tribos indígenas -mantidas pequenas sobretudo para efeitos de sustentabilidade-, este regime jamais pesou e seu funcionamento foi aprovado pelo tempo, vindo a sucumbir apenas diante da invasão de todo um outro Continente...

Quando os europeus chegaram às Américas, tiveram que importar africanos mais “civilizados” com hábitos agrícolas para realizar os trabalhos forçados nas plantações coloniais. A única verdadeira aliança que conseguiram ter com os nativos foi de ordem militar.
Havia porém um grande povo com uma cultura especial, o Guarani, mais dado à agricultura além de manter crenças expectantes que lembravam as cristãs, quiçá inspiradas no universo andino com o qual mantinham contato regular, ou até mesmo pelas remotas culturas meso-mericanas originalmente. Disseminados por boa parte da América do Sul, com os Guaranis os padres conseguiram organizar sociedades novas, as famosas e produtivas reduções jesuíticas com milhares de índios cada, que chegaram a inspirar utopias sociais na Europa, especialmente através da pena de Voltaire.
Para conseguir isto, os padres tiveram que afastar a poderosa influência espiritual dos pajés, mas preservaram os caciques tribais, mantendo compromissos com a coroa hispânica especialmente de serviços militares. Estas reduções eram alvos frequentes dos Bandeirantes paulistas em busca de mão-de-obra escrava -uma vez que os índios assim domesticados se tornavam muito úteis ao colonizador-, ademais de debilitar as forças hispânicas e permitir o avanço luso-brasileiro sertões adentro.
A cultura indígena também se fortaleceu com o incremento da economia local pela introdução do gado. Os Guaranis aprenderam a tratar dos vacuns, mas as tribos nômades dos campos –Pampas, Charruas, Minuanos- passaram a usar os cavalos com grande habilidade. Na região do Pantanal (Gran Chaco) os “irredutíveis” Guaicurus se tornaram uma potência local, oferecendo grande resistência à colonização na região. Após conseguirem um tratado de paz, se tornaram colaboradores da coroa portuguesa inclusive no “negócio” escravagista.

As mudanças da sociedade europeia não reduziram porém o abismo cultural com o mundo ameríndio, antes pelo contrário, uma vez que a Europa caminhou para o Capitalismo, impulsionando consigo a cultura colonial e mestiça. 
Apropriando-se do discurso iluminista de se pretender porta-voz da cultura e da civilização, a alta burguesia colonialista tenta generalizar as coisas dizendo de forma hipócrita e oportunista que o espírito aristocrático é universalmente nocivo, quando na realidade a validade deste discurso sequer ultrapassa as fronteiras da Europa. A verdadeira questão está na oposição eficaz que a aristocracia, como detentora da cultura e da consciência nacional, pode fazer e faz contra as pretensões predatórias do colonialismo.
Nem mesmo o socialismo de matriz européia soube respeitar realmente o indígena, tratando o nativo como um elemento a ser incorporado à modernidade, ainda que custosamente se possa alimentar a esperança de transformá-lo em lavrador ou proletário. Esta representa porém uma distopia nociva e teórica que não se aplica ao novo Mundo em função da formação natural das nações. O resultado disto é uma alienação ideológica gritante, onde o opressor capitalista inclusive usa a utopia marxista para dividir e confundir o povo mais necessitado.
Daí o convívio difícil que a cultura europeizante mantém com os nossos índios, ainda que o fomento da cultura nacionalista local tenha tratado de resgatar a sua importância e identidade, dada inclusive certa aproximação “ideológica”, por assim dizer. 
A saga de Canudos
Ora, a organização das sociedades do Novo Mundo, naturalmente fomenta passo-a-passo e a seu tempo a cultura de perfil proto-aristocrático ou nacionalista, como um avanço natural da cultura e da sociedade. Da mesma forma, como extensão da cultura indígena, surge o sincretismo nativo da cultura popular e seus próprios movimentos espontâneos de socialização.
Uma verdadeira “Política da Libertação” de fundo cultural é que deve então ter lugar, ao invés da “luta de classes” alienada e de metas meramente econômicas, mesmo porque um país forte e protegido não necessita de conflitos internos. A ideia incipiente das classes –incipiente porque as próprias classes se acham todavia ainda em formação no Novo Mundo- deve dar lugar à da cultura, especialmente aquela de matiz popular, com suas devidas forças evolucionárias (evitamos o termo “revolucionário”, próprio dos processos europeus de descontrução sócio-cultural). Citemos um importante autor da Filosofia da Libertação, o filósofo argentino Enrique Dussel:
“Contra o dogmatismo abstrato de esquerda –que levanta exclusivamente a cultura proletária inexistente em muitos países latino-americanos- se deverá opor a cultura popular revolucionária (conceito e categoria muito mais concretos e reais na América Latina).” (Dussel, “Filosofia de la Cultura y la Liberación”, pg 257, Universidad Autonoma de la Ciudad del México 2006)*
Para a ótica materialista e revolucionária europeia nada disto soa bem, uma vez que o Velho Mundo sofreu um curso histórico oposto. Com isto existem várias tendências ideológicas europeias que gostariam de ver as coisas mais “estacionadas” no Novo Mundo, sem “arroubos” de independência real, cultural e econômica. O gesto mais dramático realizado nos tempos pelas potências opressoras foram as Ditaduras Miliares impostas sobre a América Latina no Século XX, visando “podar as asas” destas nações emergentes. Porem tal coisa não foi uma iniciativa unilateral do capitalismo, pois na esfera sujeita ao socialismo aconteceu coisa semelhante e sem melhores resultados.
Contudo o destino do Novo Mundo deve vingar. Nações são como criaturas com vida própria e ciclos a cumprir. O ciclo nacionalista sofreu um duro golpe mas ele deve ressurgir e se renovar, incorporando os ideais necessários ao Bem Comum; como já volta a acontecer a olhos vistos aliás em alguns países da América do Sul, inclusive sob o amparo direto das sociedades nativas que fornecem afinal alguns dos tantos elementos históricos e sociais hoje necessários, como o ambientalismo e a paz social. O momento atual é de refinamento, cabe agir com muita perspicácia e objetividade. Quando o inimigo é poderoso toca fortalecer a retaguarda e apurar a capacidade de reflexão e a independência a todo custo.

Os falanstérios de Charles Fourier

Tal coisa implica pois em fomentar as comunidades intencionais, bases sociais e econômicas dos novos momentos culturais. Marx e Engels criticaram de forma desajeitada no seu “Manifesto Comunista” aquilo que chamam de “socialismo utópico”, tal como conceberam Owens e Fourier através de suas comunas intencionais. Não obstante, estas não são exatamente ideias e práticas novas (donde não poderem ser taxadas de utópicas!), muito pelo contrário, integram uma ampla tradição cultural humana, cabendo apenas encontrar o seu verdadeiro curso histórico e a decorrente profissionalização. Sob as pressões da Guerra Fria, a juventude deu passos nesta direção, buscando organizar comunidades alternativas pese sua inexperiência e falta de orientação e de apoio.
As comunidades indígenas têm muito a ensinar nesta fase, ainda que caiba organizar comunas mais amplas e numerosas tendo em vista os contingentes humanos modernos, ou seja, cidades novas e sustentáveis, com culturas autônomas e independentes, onde altivamente as sociedades decidam viver sem a corrupção do mundo exterior. Com isto o nosso indigenismo tão perseguido pode oferecer um decisivo norte nesta desafiadora hora da nação, quando a consciência social do país se acha tão afastada de sua própria natureza, e para além do romantismo burguês alienado da realidade sociocultural, mas como um modelo e referência real de existência, onde as coisas podem ser perfeitamente adaptadas através de um sincretismo histórico.
Existem inclusive calendários que regulam a evolução das “estações sociais”, apontando para o momento da consolidação da aristocracia nacional através do fomento da sociedade filosófica, depois que tivemos a etapa militarista (“Primeira República”) e a etapa socialista (“Segunda República”). A “Terceira República” deverá surgir na esteira da organização das comunidades intencionais inspiradas nas culturas indígenas e na tradição universal da primazia da cultura.
A revolução social da aristocracia espiritual passa pela cultura e pelo investimento na qualidade acima da quantidade, ou na consciência sobre a economia, concentrando-se na formação do próprio ser humano, razão pela qual elege criteriosamente a criação de laboratórios sociais visando a educação integral e a formação do caráter (cultura-com-alma, ciência-com-consciência, etc.). Algumas vezes este propósito se viu reduzido às classes sociais mais altas, como ocorreu na Idade Média onde a nobreza dividia seus filhos entre a administração (ou formação militar) e a igreja, não faltando a construção de cidades especiais para a criação criteriosa destas elites-de-consciência, como ocorreu entre os Incas através de locais como Macchu Picchu. Porém, em muitos casos também se priorizou o social pela preservação geral da qualidade-de-vida e de consciência-do-todo mediante a organização de sociedades tribais reduzidas, sempre com grande ênfase na cultura e na Natureza, mantidas íntegras sob a orientação dos sacerdotes (pajés, xamãs, druidas, etc.) contatados com as forças cósmicas.
Tais procedimentos seriam aliás a regra natural nas nações em construção que fazem a opção pela cultura soberana e a justiça natural. Mais do que buscar um igualitarismo radical fantasioso, se trata de promover a justiça natural pela oferta de oportunidades iguais para todos, de modo a cada um poder desabrochar naquilo que realmente é. O verdadeiro aristocrata não concede aos homens o direito de determinar o destino de outros homens, visando antes que “todos os seres humanos possam desabrochar em seus potenciais sob aforça dos elementos naturais e os estímulos da cultura universal”.

* Enrique Dussel é um filósofo argentino radicado (exilado) no México, expoentes da Filosofia da Libertação e do pensamento latino-americano em geral. Tem se colocado como crítico da pós-modernidade, chamando por um novo momento denominado transmodernidade e do pensamento eurocêntrico contemporâneo (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Enrique_Dussel).

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