sexta-feira, 17 de abril de 2015

O Canto-da-Sereia - a indústria do desejo na sociedade capitalista: para além da mais-valia



O capitalismo é um predador, mas é acima de tudo um predador de almas e de consciências, como um vampiro espiritual que busca nortear as nossas opções. E como todo bom predador ele é altamente adaptável, qual sucede aos felinos que são os predadores mais capazes.
Uma de suas estratégias mais importantes está na cooptação das oposições, mais ainda do que sua simples aniquilação. Através disto ele não apenas desvia e anula as concorrências ideológicas como ainda amplia o seu campo de exploração, como é desde sempre os seus objetivos. Para que destruir a diversidade cultural, quando se criar variedades éticas e exóticas de consumismo capaz de diversificar e ampliar o espectro do consumo?
A mentira, a ilusão e a simulação são as armas mais importantes do capitalismo. Por trás deste sistema estão as mentes mais perversas e astutas da Ciência, investigando o comportamento humano para as empresas melhor lucrar e sujeitar. Indo mais a fundo, alguns quererão associar o capitalismo ao próprio Diabo como “Pai da Mentira”, usando quiçá as palavras de Jesus de que “Não podeis servir a Deus e a Mammon (as riquezas)” (Lc 16:13).
Contudo, a demagogia e a manipulação não são apanágios capitalistas, mas do poder em geral. Prevendo isto o anarquismo foca a sua luta contra o poder, e não contra as ideologias que o empregam. A questão é que, por sua própria natureza, o capitalismo demonstra astúcia especial no trato da manipulação social.

Aldous Huxley vislumbrou nisto a “ditadura perfeita” por se tratar de uma prisão pavlovniana sem grades, que dá toda a ilusão de liberdade. Disse o autor:
"A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros onde os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura, onde graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
O maquiavelismo tem origem na aristocracia decadente e se baseia em fatos históricos. Maquiavel, considerado o fundador da ciência política moderna pelo seu realismo (ele serviu aos Bórgia), havendo inspirados filósofos marxistas como A. Gramsci. O realismo visa o poder e o idealismo visa o melhor, mas ambos podem abrigar a demagogia.
Através destas avaliações, devemos ampliar as estratégias de libertação para o campo dos subjetivismos. E com isto estamos falando realmente de mecanismos de saneamento psíquico, sem perder o sentido das coisas como seria confundir a busca da liberdade com a libertinagem fútil. Será que poderemos chegar a fazer da produção capitalista da libido uma grande festa tântrica, ou estaremos mesmos condenados à orgia social que cada vez mais emerge sem pudor..? Há que ter mecanismos adequados para disciplinar as energias criativas.

Micropolítica da alienação

Em “Micropolítica. Cartografias do Desejo”, Felix Guattari aborda aquilo que verdadeiramente está nas bases do sistema capitalista: a produção fundamental do “feitiço do desejo” através da mídia, da alienação e do monopólio cultural. Atua no fulcro da consciência ou, numa palavra, através da “educação”, na própria direção dos pensamentos.
O desejo induzido e estimulado, disseminado e diversificado, sem o qual o consumismo teria os seus horizontes muitos mais restritos e limitados: “a produção de subjetividade constitui a matéria-prima de toda e qualquer produção.” (Op. cit.)*
Na cidade não há o verdadeiro sentir, pelo contrário, há dor e agressão. Se a sensibilidade não pode adquirir asas mediante o amor e a beleza, ela se concentra na libido – esta é a origem dos símbolos do caduceu e de kundalini.
Quais as melhores ferramentas para enfrentar esta situação, uma vez que o problema transcende questões meramente econômicas? No final da matérias buscaremos tratar destas respostas.
Para Guattari, a criação do psiquismo através do poder midiático suplanta hoje as ideologias sociais - o autor cita o Islã em especial.** E mostra a incapacidade das doutrinas sociais em avaliar estas questões:
“Se os marxistas e progressistas de todo tipo não compreenderam a questão da subjetividade porque se encerraram num dogmatismo teórico, isto não é o que tem sucedido com as forças sociais que hoje administram o capitalismo. Estas forças têm entendido que a produção de subjetividade talvez seja mais importante que qualquer outro tipo de produção, mais essencial que o petróleo e que as energias. Es o caso do Japão que não tem petróleo, mas tem -e como!- produção de subjetividade.” (Guattari, op. cit.) 

Japão: o paroxismo da produção capitalista do desejo

A “cegueira de Marx” não se deve apenas à sua fixação no aspecto econômico. No seu tempo ainda não havia as informações com que se conta hoje para avaliar as leis do comportamento adequadamente. Os especialistas nestas questões viriam apenas mais tarde, como I. Pavlov e B. F. Skinner.
Ademais este são seria realmente um enfoque muito apropriado para a cultura do proletariado, cujos objetivos são mais imediatistas. Sucede que o proletariado (incluindo os seus filósofos) teria menos instrumentos para tratar com questões tão sofisticadas.
O capitalismo é um produto direto do humanismo, neste sentido o capitalismo sempre trata de instrumentalizar as chamadas “causas sociais”. Até certo ponto justas, no entanto ele sempre as fomenta e copta a seu favor calculando os ganhos para o mercado.
Sem confessar, o capitalismo age como disse Jesus: “Quem não é por mim é contra mim”. Porém, Deus também diz: “Quer andeis à esquerda ou à direita, segui-me.” “Direita” e “esquerda” tocam melhor à organização da “dialética materialista” existente entre a burguesia e o proletariado, e que se resume na prática ao dualismo tese-antítese. Porém as classes mais esclarecidas buscam sínteses e transcendências.


Egrégoras e feitiço grupal

Embora tenha analisado a fundo o assunto, é possível que Guattari não tenha a completa noção da dimensão daquilo que denuncia. Toda a sociedade-de-massa está destinada a produzir poderosas egrégoras –as energias humanas não se somam meramente: elas se multiplicam exponencialmente!; a grande dificuldade é conseguir levar tudo isto para algo positivo.
O hedonismo (vulgarmente entendido) sempre foi um comportamento da burguesia. A questão é que o capitalismo se especializou em universalizar o desejo através da ditadura da cultura de consumo mantida pelo monopólio das mídias:
A própria essência do lucro capitalista está em que não se reduz ao campo da mais-valía econômica: está também na tomada de poder sobre a subjetividade.” (Guattari, op. cit.)
O capitalismo não é apenas um mercantilismo, a mais-valia se estende às emoções: devemos produzir mais emoções do que precisamos, para fornecê-la aos nossos senhores. Somos explorados emocionalmente também, reconduzindo as nossas energias para o consumo dos produtos industriais e na atenção a mídia condicionadora.
“(...) o capital funciona de modo complementar à cultura enquanto conceito de equivalência: o capital se ocupa da sujeição econômica e a cultura da sujeição subjetiva.” (Guattari, op. cit.)
O fascínio que gera a televisão se deve não somente a seus próprios conteúdos, mas também à força-da-atenção produzida pela concentração das mentes reunidas em torno de um dado programa. A qualidade da programação e dos produtos apresentados é fundamental, colaborando porém para isto as expectativas criadas através da crítica e da propaganda.
Aquilo que o capitalismo produz através da sedução e do terror combinados, pertence àquilo que as sociedades tradicionais chamam de “feitiçaria”. Por ignorância, temor ou preconceito, muita gente da área filosófica torce o nariz para a palavra “feitiçaria”; no entanto seria a expressão mais cabível.
“Obsessão” também seria cabível. A obsessão induzida é o recurso mais poderoso da sociedade capitalista. É também “Síndrome de Estocolmo” (a “simpatia pelo agressor”, como autodefesa inconsciente) e a “Caixa-de-Skinner” em grade escala, promovendo a falsa-ideia de “deixar as pessoas felizes” estimulando os seus desejos após haver produzido as carências e as neuroses.
Esta criação de egrégoras praticamente irresistíveis, quebra a moral e a vontade, através da hipnose coletiva midiática, enquanto o confinamento urbano cria um campo de angústia e de neurose que joga o ser humano diretamente nos braços da indústria.
O tema da egrégora é sutil, mas pode ser reportado desde muitos ângulos. Quem já não se deu conta, por exemplo, deste fenômeno (e não sei se ele já possui um nome) de associar um lugar a um certo pensamento, de modo que ao regressar àquele local os mesmos pensamentos que lá tivemos nos tomam de “assalto”! Seja como for que isto se explique, o fato é que é possível marcar e intensificar a energia mental-psíquica dos lugares. Todos os ambientes sociais e domésticos terminam por desenvolver as suas próprias egrégoras, a sua concentração de “energias subjetivas”.
A egrégora é formada pelo contexto, que inclui a nossa interação com o meio: o histórico do ambiente e as relações sociais. A questão simbólica do meio é porém ignorada pelos esoteristas, como se o espaço não tivesse uma “astrologia” tanto quanto o tempo.
Uma forma simples de observar a realidade da egrégora é pela mudança radical de ambientes. Após algum tempo, percebemos ser possível a modificação dos nossos condicionamentos –e até a criação de novos, e nisto tudo a aplicação de “reforços” positivos também pode ajudar. Este prazo existe por causa da inércia provocada pelo condicionamento, atuando em nosso inconsciente e na nossa aura energética desvitalizada.
A egrégora produz condicionamentos, positivos ou negativos: não há espaço para vazios, estar no limiar significa ficar suscetível. Esta é uma crítica que pode ser feita ao quietismo, pois as técnicas espirituais superiores exigem positividade e criatividade (adiante voltaremos a isto). Ademais para conhecer realmente algo devemos nos afastar daquilo, e para conhecer algo novo também.
Visando fortalecer o círculo vicioso da bruxaria capitalista, pratica-se uma “Síndrome de Estocolmo” controlada e subjetiva, sob um misto de agressão e conforto. A “Síndrome” atinge as pessoas com força correspondente à intensidade da operação e à suscetibilidade da vítima.


É possível que o capitalismo tenha descoberto a grande força que move a humanidade –a magia! Neste caso, caberia qualificar qual tipo de magia, termo que é usado de uma forma ampla mas que significa “trabalho com a luz” no persa. No caso do capitalismo devemos falar antes de feitiçaria, que é a magia usada para o mal das pessoas.
A cultura de massa –que é geralmente urbana-, de início enfatizada para o consumo intensivo e a industrialização dos campos, logo revelou o seu poder para produzir fortes egrégoras e condicionamentos, conhecidos especialmente a partir dos experimentos de Pavlov e de Skinner. A propaganda midiática emprega o princípio do reforço e até do estímulo de que falam os behavioristas. Outras fontes de inspiração, que não podemos prescindir são os experimentos de propaganda nazistas para controle de massas.
De fato o capitalismo não está a inventar nada, está apenas a “industrializar” as suas descobertas, explorando algo que existe na humanidade de longa data, que é a fascinação dos sentido, especialmente através do sexo.
O sistema liberal induz à experimentação, a experiência reproduz comportamentos, e os comportamentos geram ideologias – as chamadas “micropolíticas de minorias”-; e uma vez que se chega ao estágio da ideologia, podemos nos ver dentro de um sistema fechado. Por vezes, o capitalismo apenas coopta, desvia ou reforça o experimentalismo buscado por alguns setores culturais que sequer pertencem necessariamente à burguesia. Desejos artificiais terminam gerando falsas ideologias que apenas complicam o quadro político transformando-o num verdadeiro labirinto. Mergulhar no mundo dos desejos pode ser ficar preso ao capitalismo, e também prender a outros a ele.
Em tese, a democracia é um sistema onde os votos de um alienado e de um lavrador valem tanto quanto os votos de um cientista e de um industrial, independente da contribuição que cada um dá para a sociedade. É óbvio que esta fábula não poderia ser real. Apenas o capitalismo poderia pensar em administrar algo assim com sucesso aparente. Existem muitas formas de contornar a matemática dos votos, a começar pela construção prévia dos desejos que certos candidatos virão a prometer realizar. Esta democracia midiática não passa pois de um dos mais ágeis e articulados mecanismos de ilusão.
Alguns estudos sugerem que podemos viver dentro de um universo virtual. Porém o capitalismo trata de organizar as suas próprias virtualidades para o ser humano, de modo a fascinar absolutamente e dar uma nova ilusão de liberdade quase divina. Funciona quase como uma droga reforçando a alienação da realidade original.
Que importa se as nossas vidas são frustradas, vazias e confinadas? Podemos viver virtualmente a vida de outros. A humanidade desde sempre convive bem com mitos e fantasias. O que é o carnaval senão um símbolo de liberdade? Voltemos a Guattari:
“Desde meu ponto de vista, esta grande fábrica, esta poderosa máquina capitalística produz inclusive aquilo que acontece conosco quando sonhamos, quando devaneamos, quando fantasiamos, quando nos enamoramos, etc. Em todo caso, pretende garantir uma função hegemónica em todos estes campos.” (Op. cit.)


Descondicionamento e reegregorização

Certas filosofias se digladiam de longa data com o fator da alienação existencial, propondo ao ser humano a consciência-de-si ou a percepção da própria consciência e do Ser por detrás dela. O Budismo é uma das mais eloquentes neste sentido. O capitalismo investe porém no polo oposto, na concentrada alienação do ser humana, no que a princípio tem amplas vantagens porque que apenas “rema a favor da correnteza”.
Contudo as pessoas imaginam que para alcançar a iluminação basta sentar, aquietar a mente -e esperar kundalini ascender! Nada disto, este é apenas a primeira etapa dos trabalhos. Kundalini apenas desperta realmente através de trabalhos criativos –o que nos leva a um sentido bastante literal do termo “magia”: “trabalho com a luz”. Esta é a grande tarefa das novas Escolas de Iluminação e também da Civilização cósmica a ser implantada.
Claro, as pessoas estão tão envolvidas em suas vidas miseráveis que sequer podem chegar na primeira etapa, e quando o fazem desistem porque permanecem apenas naquele “limiar” frágil e suscetível, e acabam apelando para a “solução fácil” das drogas porque não encontram estímulos e nem informações adequadas para avançar nas suas práticas realmente libertadoras. E uma vez criado o “paraíso artificial” já não importa o mundo, a política e a espiritualidade real –o ser humano conhece muitas formas de simular a felicidade, e as promessas do capitalismo são apenas uma delas. As ilusões do “socialismo científico” marxista porém não ficam atrás, como tem sido já demonstrado. O Estado se encarrega contudo de manter tudo sob a aparência da normalidade e se encarrega da “segurança das instituições”.

Como resolver um problema tão formidável? A conscientização do verdadeiro problema é o primeiro passo para tentar encontrar as soluções. E uma primeira constatação é que não existe nenhuma possibilidade de vencer o colosso em seu próprio campo de batalha. E que campo seria este? Ele certamente é extenso, porém existem áreas nevrálgicos, de modo que necessitamos encontrar os seus “calcanhares de Aquiles” -e estas são seguramente as cidades (e a civilização), origem e foco da cultura da burguesia (e do proletariado históricos, da mesma forma como o campo e a natureza eram os focos da aristocracia e do clero).
A evolução, segundo Darwin, não ocorre apenas através da força bruta, mas pela capacidade de adaptação. Muitas batalhas dadas como perdidas, puderam ser vencidas por se trabalhar com boas estratégias. 

Poderíamos até dizer pois que o surgimento dos grandes desafios pode fazer parte dos próprios mecanismo da evolução. Somos colocados diante de um desafio colossal, para despertar recursos ocultos. Então, a batalha singular entre Davi e Golias não deve ser vista como uma excepcionalidade, quiçá uma das regras capitais da evolução, visando compensar a aparente debilidade física com habilidades internas e assim desenvolver novas dimensões.
Não basta pois apenas a força bruta, sequer para manter o equilíbrio. O Império Soviético sucumbiu ao seu concorrente, ruindo por dentro e por fora. Podemos lembrar que /Isto é bem como Noé ao enviar o corvo no final do dilúvio, que fracassou no intento de encontrar terra firme. Na sequência, porém, ao enviar a pomba este teve sucesso.
Existe um simbolismo importante aqui. As águas quase sempre simbolizam a humanidade e “suas coisas”: cultura-de-massa, etc. Na iconografia tradicional o pombo está associado à morte –e portanto alguma violência-, inclusive a própria transformação-de-si. A pomba por sua vez simboliza o discipulado, a pureza das intenções e o caminho da paz.
Vimos que o Cristo venceu César através do amor. Já Cartago sucumbiu à Roma, da mesma forma como a União Soviética foi derrotada pelos Estados Unidos. Os impérios detestam a concorrência ideológica, especialmente quando se rendem à “ideologia” do mercado. De modo que não seria pela foça ou pela “tomada do poder” que o novo há de se implantar -ao menos não mais-, e menos ainda através das “vias democráticas”, porque isto nunca aconteceu mesmo. A democracia é apenas uma ilusão e um subterfúgio para desarmar os radicalismos.
Eis que o valor e a cultura se tornam definitivamente decisivos. Entra também aqui o mito das sereias, onde Ulisses e os marinheiros se destacam como seres especiais naquele contexto caótico que leva a grande maioria ao fundo das águas. Poucos sobrevivem à travessia fatal e mais raros ainda aqueles que como Odisseu optam por escutar o canto mavioso, à condição é claro de serem amarrados aos mastros dos navios, beirando assim a loucura...
Este é pois um problema sério a ser encarado com heroísmo, resignação e desprendimento. “Não se faz uma grande causa sem mártires“, sentenciou Helena Roerich, divulgadora de luminosos ensinamentos. Por isto uma causa apenas se firma realmente, quando tenha pessoas dispostas ao martírio em suas fileiras.
Afirmamos acima que o ponto nevrálgico do capitalismo (e da burguesia) são as cidades. Queremos com isto dizer o que então? Que caberia focalizar os “esforços revolucionários” nas cidades burguesas, tomar os meios midiáticos e de produção concentrados nas cidades, quiçá atacar as indústrias como pregam alguns radicais verdes, praticar o vandalismo contra o patrimônio provado ou estatal como forma de protesto e assim por diante..?
Nada disto. Tais coisas apenas reforçam e endurecem o sistema e ainda o colocam em posição de vítima –lembremos sempre que as pessoas estão hipnotizadas e sofrem da “Síndrome de Estocolmo”. Todo o contrário então Como dissemos mais acima sobre as egrégoras, “para conhecer realmente algo devemos nos afastar daquilo, e para conhecer algo novo também.”
Com isto não estamos propondo um afastamento completo das cidades e sobretudo da idéia de cidade. Não se trata de promover o feudalismo, ainda que o contato com a Natureza e a defesa do meio ambiente devam positivamente ser intensificados. A Idade Média mundial foi positiva mas teve ainda muito de romantismo. Uma das forças da burguesia está na redescoberta do poder urbano, o qual não necessita ser usado “para o mal”. A civilização foi uma nova síntese e por isto ela pode oferecer respostas para todas as culturas sociais.
A cidade também pode ser uma fonte de cultura e de incremento das relações. Aquilo que necessitamos é de equilíbrio. Tratando assim de contemplar a integridade humana representada nos dois hemisférios cerebrais, e onde o lado sensível não deve ser simplesmente abarrotado por lixo capitalista.
A evolução antropológica nos leva a avançar nas culturas do passado. Desde que nos tornamos homo sapiens sapiens p
assamos por duas grandes fases culturais: a do neolítico rural e dos metais civilizada. Agora cabe avançar para a fase dos “intercâmbios orgânicos” entre estas duas culturas, gerando intercâmbios devidos entre os dois hemisférios cerebrais para assim criar uma nova forma de percepção do mundo através da sensibilidade-inteligente.
Obviamente jamais chegaremos a tanto tentando reformar as velhas cidades através da política corrompida. B. F. Skinner organizou a forma mais sofisticada de behaviorismo (comportamentalismo), e propôs a elaboração de comunidades intencionais para a melhoria das relações humanas. Skinner foi declarado “o psicólogo mais influente do século 20”, sendo ele ainda é pouco compreendido e até combatido por ter uma filosofia íntegra (para ele o ser humano é um todo unificado) e propositiva.
O princípio é pois muito positivo, e certamente está na base dos experimentos comunitários do movimento hippie. Algo disto também se pode dizer dos falanstérios do chamado “socialismo utópico”. 

projeto de cidade sustentável de Gurgel

Contudo o objetivo seriam mesmo a criação de novas cidades, onde o todo da vida poderia ser adequadamente administrado. Uma vez que as coisas estejam funcionando bem ali, naturalmente as pessoas acorrerão em massa a elas, já que terá apenas o melhor das cidades, sem poluição e opressão social.
O investimento nesta ideia pode ser considerado como a revolução social do Século XXI, e integra uma síntese também nas dimensões da transformação social procurada no século anterior, onde os experimentos revolucionários se dividiram entre o individual (comportamento) e o civilizatório (sistema global). 
O incremento da verdadeira cultura social focalizada na nova cidade, ambiente onde as pessoas vivem e se relacionam, praticado com qualidade-de-vida, conscientização e recriação do meio-ambiente, representa a forma mais segura da evolução cultural e social para a humanidade no novo século, ainda que demande de início o emprego das iniciativas privadas. Depois naturalmente o sistema irá copiar para não perder o prestígio tão cobiçado pelo poder. Afinal, considerando que estaremos apenas “fazendo a coisa certa” e sem radicalismo, já não haveria muito a temer da repressão oficial.
Nada existe de estranho nisto, quando sabemos não dever depender do Estado para tudo –e na verdade dificilmente poderemos contar com o Estado para qualquer projeto de cultura mais avançada, a qual busca inclusive a própria superação ou mitigação da presença do Estado. Quando a sociedade alcança superar as injustiças sociais, o Estado deixa de ter razões para existir internamente.
O tema se enquadra de resto na linha de evolução sociológica de ambos os hemisférios: para o Velho Mundo (Eurásia), é capaz de oferecer o holismo necessário ao ideal do igualitarismo formal da conclusão civilizatória; e para o Novo Mundo (Américas) atende as necessidades da evolução social através do fomento dos laboratórios sociais necessários à organização das etapas superiores da cultura visando a construção da nova Civilização, cm bases também igualitárias porém com horizontes realmente livres.

* “A produção de subjetividade se encontra, e com um peso cada vez maior, no seno daquilo que Marx chama infraestructura produtiva. É algo muito fácil de verificar. Quando una potência como Estados Unidos quer implantar suas possibilidades de expansão económica em um país do chamado Terceiro Mundo, começa, antes que mais nada, a trabalhar os processos de subjetivação. Sem um trabalho de formação prévia das forças produtivas e das forças de consumo, sem um trabalho sobre todos os meios de semiotização econômica, comercial e industrial, as realidades sociais locais não poderiam ser controladas.” (Guattari, op. cit.)
** “As referências universitárias e políticas tradicionais, o marxismo clássico ou um remendo freudiano-marxista não dão conta destes problemas do desejo em escala coletiva. Alguns dos fenômenos religiosos que se estão dando atualmente —como aquele que reúne ao povo do Afeganistão em sua luta contra o opressor soviético ou o que está sucedendo no Iran— não podem ser explicados unicamente em termos de ideologia. Em minha opinião, se trata de processos de constituição da subjetividade coletiva que não são o resultado da somatória das subjetividades individuais, senão da confrontação com as maneiras com as que hoje se fabrica a subjetividade a escala planetária.” (Guattari, op. cit.)

* Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957

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