quarta-feira, 25 de março de 2015

Sociedade-sem-classes ou sociedade-sem-privilégios-natos? A verdade sobre os alicerces das “utopias”


Uma das maiores dificuldades para colocar em prática os grandes ideais, está na deformação das ideias criando mitos inatingíveis, gerando frustrações sobre expectativas vãs. Parece que as doutrinas materialistas dos últimos séculos empobreceram o discurso social criando óticas simplistas e infundadas, sob os aplausos dos “pragmáticos” da teoria rival do darwinismo social que preferem usufruir as coisas da forma mais crua, e do qual o marxismo terminou por beber através da proposta da luta-de-classes.
O mito da sociedade sem-classes vem assombrando a humanidade há séculos, porém tal coisa não passa de sombra do grande ideal sociológico da sociedade sem privilégios natos –e a rigor sequer adquiridos, na medida em que não se deve contar com verdadeiros privilégios, salvo o livre exercício das vocações e das habilidades natas ou adquiridas.
A ideia da sociedade-sem-classes representa em si uma aberração, posto que as classes representam funções especializadas e setores organizados da sociedade, nos quais os indivíduos devem poder entrar e sair à vontade; servindo ademais para a evolução da experiência e da consciência. Afinal, tampouco se pode esperar igualdade de deveres, mas sim oferecer igualdade de direitos ou de oportunidades.
Existem muitas ordens de classes sociais na História, dizer que os guerreiros são meros exploradores do trabalho proletário é de um reducionismo espantoso que quer desconhecer o rol dos valores de uma classe e até de civilizações inteiras! Houve etapas da História onde prevalecia a inteligência e o idealismo sobre o interesse imediatista, e concepções elevadas eram realizadas. Sem buscar generalizações, digo que as classes expressaram basicamente estados-de-consciência e funções profissionais genéricas, e se existem degenerações isto já são coisas humanas e muitas vezes posteriores. Se estudamos o hinduísmo mais a fundo iremos descobrir até que as castas possuem escolas de formação por detrás (chamadas ashramas), e poderemos desconfiar que ali estão as suas raízes antes que o apego humano tenha cristalizado estes extratos culturais em condições-de-nascimento. Isto é apenas para lembrarmos que “existe muito mais coisa entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Hoje toda a nossa cultura não passa de uma sombra das luzes que um dia foram acessas no planeta.
Há quem imagine que as “sociedades indígenas” não possuem classes sociais, o que não representa exatamente uma verdade. Apesar de fragmentadas e diminutas, estas sociedades não só possuem classes (xamãs, tuxauas e guerreiros) como não raro elas também são hereditárias. Em muitas tribos os filhos herdam a condição de reis tribais e também os xamãs. Os guerreiros são o setor que mais representam uma classe (em número) nas sociedades tribais. De toda forma estas não são realidades que se aplicam a nós como sociedade-de-massa em transição, embora possam nos aportar certas referências positivas.
A pulverização das sociedades tribais se deve basicamente a fatores ambientais de sobrevivência -é a estrutura econômica mista de subsistência que remonta ao neolítico. Esta fragmentação também previne o excesso de poderes das classes mais sofisticadas, que ficam assim sob o “controle popular”, já que a tribo não pode ser considerada o “exército” de um rei ou de um sacerdote. Pelo visto, os bosquímonos da África e da América do Sul –cultura caçadota/coletora que remonta ao paleolítico- também sustentam uma estrutura social semelhante.
Afinal, como funcionaria uma suposta sociedade-sem-classes -de preferência que não fosse uma tentativa vã de voltar às tribos? Esta é uma questão real, porque se lê sobre utopias com visões impossíveis/inconvenientes como “todos devem fazer de tudo”, impedindo um aprofundamento mínimo nas atividades. Valorizamos especialmente aqueles sistemas sociais de educação permanente/integral que chamamos de “classes cíclicas”, onde a ascensão social acontece mediante o avanço cultural (refinamento da consciência) livre e universal (mas não compulsório) e não tanto pelo aspecto econômico, coisa que ao que parece seria bastante comum na Antiguidade, quando a sociedade visava mais os ideais humanos e não a simples experiência do “livre-arbítrio”.
Quanto ao caminho para buscar realizar isto, acreditamos que o melhor seriam organizar laboratórios sociais completos, para além dos falanstérios simples, e sim mediante cidades novas completas, pois o papel fundador das cidades possui grande prestígio e tradição. Adiante voltaremos a isto.

A qualidade do trabalho

Cada ser humano traz ou adquire naturalmente certas características, que o faz tender para esta ou para aquela atividade, ao mesmo tempo em que ele pode desejar mudar de atividade com o passar dos anos em nome do refinamento da experiência. Tal coisa pode ser realizada mais ou menos dentro do mesmo reduto social.
As atividades nem sempre diferem na sua forma exterior, mas também nos seus conteúdos. Um lavrador que trabalha em sociedade com um burguês poderá ter a sua atividade qualificada de modo distinto em relação ao trabalho de quem atua em sociedade com um religioso (“a religião não é em si um mal, o mal é a má religião”). Esta axiologia-do-trabalho é muito valorizada no hinduísmo, onde o trabalho “gratuito” ou “desinteressado” (aquele que não objetiva recompensas pessoais e nem coloca valor limitado ao tempo-de-dedicação) recebe o nome de carma-ioga (serviço espiritual, consagrado ou impessoal).
Por “osmose”, o servidor e o aprendiz irão adquirindo as características dos setores por eles escolhidos ou destinados, e naturalmente poderão ascender socialmente dentro desta categoria social, o que representa uma forma de evolução social e cultural. Alguém também poderia preferir supostamente mudar radicalmente de estrato social. Porém a educação é muito importante neste aspecto, e nem sempre é fácil escapar das impressões da fase inicial da vida quando importantes questões são impressas nas bases-da-consciência, ainda que na vida de muita gente brilhe uma “estrela” que o auxilie a se libertar das influências mais nefastas ou a fazer um bom uso das experiências adquiridas.
Naturalmente, a verdadeira "estrela" há de ser o sistema social igualitário-de-raiz, e com metas de ascensão cultural. As classes sociais tradicionais não possuem base econômica (mas cultural), embora isto facilmente resulte por degeneração dos sistemas. 
Contudo, o tema da “predestinação” também pode representar um problema, estando bastante sujeito a desvios e a crendices. Uma das principais fontes pseudo-filosóficas da cristalização das funções sociais, é a deturpação (ou a radicalização) da ideia de predestinação, através da reencarnação em função dos méritos adquiridos. Tais concepções terminariam originando o sistema de castas da Índia (entre outros), sistema social que na verdade era de início infenso a este tipo de desvio, uma vez que estava baseado nos ashramas ou etapas educacionais como base das classes, num sistema social precioso que misturava escola iniciática com estruturas sociais. Para alguns analistas, o Brahmanismo áryo tardio representou a deturpação do sistema védico das origens. O racismo seria uma das causas disto, uma vez que os invasores áryos eram brancos enquanto que os drávidas eram negroides, e estes foram expulsos tanto para o sul da Índia como para os fundos do sistema social.
O direito à ascensão social deveria ser uma norma universal. Contudo, o contraste racial –geralmente provocado pelo colonialismo- representa sempre um forte desafio. Nas sociedades colonizadas o caminho natural será a miscigenação, porém nas metrópoles os problemas se agravam através da xenofobia. O convívio do "outro" é tolerado nestas apenas para prover a mão-de-obra servil "necessária", com escassa permeabilidade social, de modo que o quadro pode soar ainda mais desafiador. Tudo isto apenas acrescenta a importância de se organizar ambientes especiais para a harmonia social.

Os laboratórios sociais

Enfim, para concluir esta matéria com uma nota propositiva, vale lembrar sempre a importância dos laboratórios sociais. Nossas propostas são mesosociedades rurubanas federativas, onde funcione a democracia direta e orgânica. Elas não contradizem a existência da macropolítica de massas, mas afirmamos veementemente que é sempre mais sábio criar o novo do que curar o velho, e a melhor forma de renovar o velho é também afirmando o novo. 
Tende a ser muito mais fácil fazer avançar as coisas criando novos ambientes sociais do que tentando modificar os antigos, seja por qual via for. Porém não bastaria para isto a escola, por mais importante que esta seja. A comunidade ou a sociedade deve ser totalmente remodelada, para não oferecer contrastes (ou contradições) demasiadas que possam comprometer os objetivos da escola através do convívio desnecessário com informações negativas e com pessoas de outras formações culturais, antes que a pessoa esteja realmente preparada para tal, momento quando poderá passar a ajudar estas outras pessoas ao invés de ser por elas prejudicada.
Para estes efeitos, a grande proposta é criar comunidades e cidades inteiras novas, onde as “más influências” (violência, consumismo, drogas, etc.) sejam simplesmente mantidas do lado de fora. Tal coisa representa a forma mais direta, clássica e viável para a revolução, colocando a cultura e os valores na raiz da sociedade como deve ser, e não o oposto como pretende fazer o fetiche humanista. A cidade é perfeitamente capaz de oferecer aquele “todo” que o ser humano necessita, sem a necessidade de incluir negatividades. Por isto há tempos já que as imagens das Cidades míticas têm substituído a Natureza simples e os Templos no imaginário utópico das idades.


webersalvi@yahoo.com.br
(51) 9861-5178 e (62) 9667-9857

Participe também dos debates em nossos facegrupos:

Nenhum comentário:

Postar um comentário