domingo, 19 de abril de 2015

O mito da exploração social pré-capitalista




“A História é um conjunto de mentiras 
sobre as quais se chegou a um acordo.”
Napoleão Bonaparte


Ditados como “errar é humano” e “o poder corrompe”, seriam suficientes para “justificar” aquelas situações em que malograram os esforços das classes mais ilustradas, idealistas e espirituais ante as tentações eventuais deste mundo – mas certamente bem menos -por toda a lógica e evidência- do que fazem aquelas classes sociais que elegem a riqueza e a matéria como objetos primários a serem visados nesta vida, quando a corrupção e a luxúria natural é que se tornam uma regra ao invés da exceção.
Ainda assim, sob a mentalidade modernista, quando as pessoas veem uma pirâmide social elas apenas podem imaginar algo realizado de cima para baixo. Isto até pode acontecer, porém se trataria apenas de distorção. Afinal, por que razão as pessoas raramente conseguem lembrar que as pirâmides reais são construídas de baixo para cima?!? E por que razão, enfim, o seu ápice deve ser um ônus como um peso e não um bônus como um farol?


Afinal, que indivíduo minimamente pensante não associaria as pirâmides (do Egito, das Américas e as formas afins espalhadas mundo afora), às próprias hierarquias sociais? De fato, elas foram erigidas para celebrar este mesmo fato –entre muitas outras coisas, é claro-, porém, sob certos diferenciais ao que até então havia no mundo.
Tentemos imaginar os humildes trabalhadores de todas estas obras magníficas, algumas delas tardando décadas para serem construídas, labutando arduamente para edificar símbolos da opressão social..! Nem se fossem escravos –e raramente eram- estes trabalhadores se dignariam a realizar tais coisas... Isto seria um contrasenso gritante, nada sustenta as teses dos doutos empoleirados nas cátedras e os preconceitos dos filósofos modenos inebriados pelo poder. Tentou-se dizer que as pirâmides foram feitas por escravos, quando sabemos que estes antigos trabalhadores eram inclusive sindicalizados..! Muita coisa moderna e até futurista realmente emergiu na aurora da civilização, que os modernos renegam apenas por não se tratar de “repúblicas”, ainda que tampouco fosse nada daquilo que eles imaginam ou querem fazer crer.


Então, o que existe realmente por detrás disto tudo? Aquilo que existe é, todo pelo contrário, a edificação e a emergência de hierarquias sociais naturais e gloriosas, onde a humanidade começava a evoluir nas dimensões da experiência até superar a própria condição humana gerando novas formas de ser. Superando a própria morte, sim, e atuando como “Retornados” a este mundo, já sem corrupção e com perfeita harmonia entre o espiritual e o material, sendo daí capazes de apontar os caminhos sociais para a concórdia universal. É isto que significava a cúpula destacada da Grande pirâmide de Quéops naquela aurora do ciclo cultural dos homens que agora se encerra.
Aquele que estuda mais a fundo a evolução humana, sabe que este quinto ciclo de evolução antropológica (denominada tradicionalmente como “quinta era solar” ou “quinta raça-raiz”) gerou hierarquias espirituais com acesso à Quintessência. A lenda do alquimista que transforma em ouro tudo o que toca através da Pedra Filosofal, outra coisa não é que o poder transfigurador da cultura iluminada dos mestres, onde os Elementos deixam de ser estáticos para adquirir movimento –ou seja, a evolução social suplanta os estamentos convencionais (esta é a origem de símbolos como os da suástica e do laubaru). Esta foi a dádiva que moveu a cultura para dar o próprio passo da Civilização: a possibilidade da superação da hybris humana! Era a compreensão disto, e seu reconhecimento vívido, e nada mais, que levou os povos a erguer monumentos colossais como odes imortais às sagradas hierarquias de Condutores de Nações.
Em outras palavras, aquele conceito filosófico hoje tão celebrado na boa sociologia chamado de “ascensão social” ou “mobilidade social”, fora implantado oficialmente e de forma disseminada na cultura a partir deste ciclo de evolução humana. E uma das razões para isto seria a quebra dos antigos modelos culturais rurais do neolítico, para fazer das cidades verdadeiros laboratórios sociais de bases “igualitaristas”, como centros de cultura ecumênica aproveitando a diversidade cultural do mundo para promover esta dinâmica sócio-cultural –ou aquilo que chamamos de “multiculturalismo-de-raiz, baseado na pluralidade dos modus vivendi humanos (nomadismo, tribalismo, urbanismo, etc.). Os ashramas do Hinduísmo que fundamentaram culturalmente as classes sociais e depois as castas, são um exemplo vívido disto, provendo as bases para a educação permanente comum naquelas sociedades que nutrem um modelo antropológico verdadeiramente holístico.

Numa época em que havia muito fanatismo religioso e guerras tribais -também conhecido como “o ocaso pré-diluviano do período atlante”, identificado no Genesis 6:4 como “a queda dos gigantes” (no sentido moral –trata-se senão dos antigos patriarcas que se corromperam, seguramente das classes sociais hierarquizadas),* se fez necessária a criação do Estado central pacificador. A questão seria preservar o Estado como poder mediador sem se tornar ele mesmo opressor, e para isto, além de manter o Estado reduzido, os estadistas teriam os filósofos ecumênicos e realmente esclarecidos por detrás de si, os quais foram afinal os verdadeiros idealizadores do Estado Universal.

Na Idade Média o quadro ainda era mais ou menos este, porém a Igreja era um poder cultural paralelo. A disseminação da Boa Religião (os dharmas atualizados) está na base de toda a cultura superior e holística. Ao contrário das coroas que facilmente deram as mãos à Igreja corrompida, as aristocracias trataram de observar as novidades dos tempos atentando para a renovação da religião através de nomes como Francisco de Assis (um santo de origem aristocrática/guerreira, pese ter família burguesa), arauto da Idade do Espírito Santo segundo os calendários de Joaquin di Fiori. A partir disto buscaram a renovação da civilização através da restauração da espiritualidade cristã, e tendo dificuldades para isto na Europa (razão da vinda de Lutero) projetaram assim que surgiu a oportunidade no Novo Mundo as suas esperanças.
A classe social emergente mundialmente há cinco milênios então era a da própria aristocracia espiritual, ou dos guerreiros idealistas (cujos valores estão imortalizados no clássico hindu Bhagavad Gita), capazes de atuar como militares, políticos e filósofos. E quando as suas cidades caíram nas mãos da burguesia e de invasores imperialistas invertendo as premissas civilizatórias, como última saída eles promoveram o êxodo urbano para o regresso à Natureza ou à vida tribal “das origens” em busca da regeneração da face humana e da preservação da cultura nobre.
Tal coisa houve entre os maias e, com maior destaque ainda, entre os hindus e também na Europa -povos, enfim, tipicamente marcados pela aristocracia árya. O próprio ideário medieval contemplava, através das lendas arturianas, a ideia do rei predestinado receber a espada sagrada (o poder) da Dama do Lago (a República) e a ela devolver quando a corrupção assolasse a ordem superior hierarquizada. O calendário social da Era solar aponta este período como marcado pela ascensão da burguesia cultural (pois cabe diferenciar o papel cultural original daquele mormente econômico posterior das classes sociais consolidadas no poder), através da chamada “Idade de Bronze” da cultura começada na época do Buda.**

Contudo, a dogmática modernista quer privar as classes hierarquizadas (aristocracia e clero) de legitimidade. O cientificismo positivista e o materialismo, empurrados pelo luteranismo, almejam dizer que a aristocracia é desnecessária e que o clero representa uma empulhação. Partindo de algumas situações históricas específicas de crise institucional e decadência moral, pretenderam generalizar estas situações para o conjunto da História. E para justificar os seus dogmas, as sociologias modernistas buscaram inclusive resignificar e apropriar-se das categorias sociológicas, como “classe social” e suas derivações. Naturalmente, este quadro atinge o seu ápice sob o reducionismo economicista do “materialismo dialético” ou marxismo. Citemos:
“A divisão da sociedade em classes é consequência dos diferentes papéis que os grupos sociais têm no processo de produção, seguindo a teoria de Karl Marx.”


Aqui seria então de perguntar: “-De qual ‘processo de produção’ se ocuparam a aristocracia e o clero, que inclusive veem idealmente na riqueza algo a ser evitado?” Certos historiadores inclusive definiram a Civilização como uma ordem social onde alguns grupos podem atuar sem se dedicar a questões econômicas, mas sim culturais (arte, ciência, filosofia, religião, etc.); entre outros fatores (ver “Um Estudo da História”, Arnold Toynbee).
Muitas civilizações antigas colocaram estas classes “não-produtivas” no ápice das estruturas sociais, e por razões obviamente axiológicas e culturais e nunca econômicas, ainda que nos raros casos em que estas classes após muito tempo consolidaram um Estado, 
 a corrupção e a exploração possa sim ter acontecido. Nós não diremos pois que não houve exploração social fora dos regimes republicanos. Mas ninguém poderá afirmar que inexiste uma ampla mitificação sobre este assunto.
A desvalorização da profissionalização dos guerreiros e dos sacerdotes, tinha na burguesia revolucionária o claro propósito de desbancar a estrutura feudal e implantar o capitalismo de Estado. Mas quando se fala sobre a exploração do camponês na Idade Média, de qual período exatamente se está a referir? Certamente o menor e o mais recente deles, dando vazão não obstante para sucessivas ondas revolucionárias... No geral, no período feudal não havia escravidão e nem Estados centralizados. A aristocracia (mesmo sob a forma do nacionalistmo) representa a própria consciência moral da nação e a custódia da sua liberdade, é a única classe capaz de conceber e de compreender a ideia de autonomia e de liberação do imperialismo, por valorizar a identidade cultural e a verdadeira liberdade de opções, além é claro de necessitar de maiores recursos circulando no país para sobreviver. O Modernismo prefere, contudo, exaltar um Classicismo escravagista, estatal e até imperialista, ignorando as glórias e liberdades da Civilização antiga as quais não obstante emprega ostensivamente no seu cotidiano.

Mais tarde, a sociologia marxista trataria de aniquilar até o direito à expressão e à existência destas classes sociais pré-capitalistas. Foi somente com a revolução industrial que as coisas começaram a sair do controle, com a produção-em-massa e o escravagismo informal. A burguesia alencou todos os seus subterfúgios e cavou outros tatos que pode dos experimentos científicos, para criar uma sociedade altamente alienada e consumista, que o marxismo se limita a pretender “socializar”.... 
Contudo, o verdadeiro mal das idades se chama imperialismo, ao qual o tema da luta-de-classes está basicamente sujeito e subordinado, ainda que certo modernismo erroneamente globalizado trate de dissimular. Através disto o capitalismo recriou a pirâmide social desta vez sim basicamente de cima para baixo, e a consolidou a tal ponto através da globalização que o socialismo já não alcança renivelar. 


Colonização não corresponde meramente à exploração social, ainda que esta abrigue facilmente o chauvinismo comum na raiz daquela. O colonialismo renascentista colocou as bases do capitalismo ungido pela Igreja. Não foi a aristocracia feudal que deu as mãos às coroas renascentistas para fomentar o mercantilismo, mas sim a burguesia que depois viria derrubar muitas vezes estas mesmas coroas ou fazer delas apenas peças decorativas.
A jogo da desconstrução social (ou luta-de-classes) até pode ser feito numa Europa antiga cultural e economicamente constituída (onde ele pode conduzir apenas ao equilíbrio), porém não pode nem ser pensado num Continente recém em formação como são as Américas. Por isto, muito alerta, anarquistas & liberais! Entre nós existe outras tarefas mais específicas a serem realizadas antes. A liberdade que buscaremos aqui, até pode demorar um pouco mais, não ela não será apenas aquela da forma procurada em outras partes, mas de um Todo glorioso que ainda dará um novo passo na evolução da Terra e da humanidade. 

Hoje o mundo pena amargamente pela ausência de valores nobres e espirituais disseminados no seio de uma sociedade laica e entregue ao consumismo e à alienação. Onde iremos parar assim? Se não pararmos, certamente seremos detidos, pela própria Natureza e quiçá por novas intervenções divinas. O relógio cósmico, os calendários sociais, os eventos históricos e os ciclos ambientais –tudo se soma hoje nesta direção. A Roda da Fortuna não poderá ser detida.
O curso social que levou a tudo isto integra as dinâmicas desconstrutivas da Europa. Nas Américas, como continente em (re)construção, existe todavia um curso sociocultural ascensional, onde inclusive se começa a colocar as bases das classes mais idealistas e espirituais, através da autocultura, do autonomismo e das novas espiritualidades socioambientais
. O facho da esperança leva o Novo Mundo, portanto, já desde as suas descobertas quando muitos idealistas para cá vieram não somente em busca do Eldorado como também de uma nova Terra Prometida.

* “Ora, naquele tempo (e também depois), quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos, os gigantes (nefilim, no hebraico) habitavam sobre a terra; estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos.” (A Bíblia de Jerusalém). Como comenta esta versão bíblica, os “gigantes” seriam “os titãs orientais, nascidos da união entre mortais e seres celestes”. Não obstante, o texto dá margem para refletir sobre a corrupção moral dos “heróis” e do “puros”, levando à queda das hierarquias sociais e ao advento da cultura-de-massa, comumente simbolizada pelo dilúvio, dando lugar à República por exemplo.
** Não confundir, portanto, com a designação com que a Ciência costuma assinalar a presente “era dos metais” (e que é a mesma Era solar atual iniciada há 5 mil anos) em algumas zonas culturais do planeta. Ainda assim, não deixa de ser interessante que a Tradição empregue a simbologia metálica para caracterizar os seus subperíodos nesta era do mundo destinada ao desenvolvimento mental.

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* Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957

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