domingo, 10 de maio de 2015

O sonho de Nabucodonosor: um histórico de olhares sobre as transformações culturais do mundo



Da mesma forma como o homem moderno se envaidece dos seus saberes sobre a “evolução” do planeta e da espécie humana, as sociedades antigas tinham em alta conta os seus conhecimentos acerca dos ciclos da humanidade em diferentes escalas, desde a espécies até os indivíduos, passando pelas raças-raízes, as civilizações, as sociedades e as próprias gerações humanas.
Sabia perfeitamente daí que, tal 
como ocorre na existência dos indivíduos com nascimento, crescimento, maturidade e velhice, as sociedades também conhecem os seus ciclos de ascensão e queda; de organização e desorganização; vigor e debilidade; legitimidade e impostura; hierarquização e renivelamento.Estes fatos estariam representados de maneira eloquente através do famoso sonho do rei Nabucodonosor, ademais de poder representar, paralela ou alternativamente, uma das raras alusões antigas ao tema das Idades Metálicas, incluindo a questão do “Quinto Império”, explorado em séculos mais recentes nas releituras do imaginário lusófono a partir dos estudos do padre Antônio Vieira.
O mito tem dado origem a uma série de interpretações mais ou menos coerentes, e tudo começa pelo profeta Daniel sob o cativeiro hebreu na Babilônia, ali pelo século VII a.C., num episódio com os característicos traços “didáticos” do exagero.

O caprichoso rei Nabucodonosor andava instigado com um sonho que tivera, mas do qual ele havia esquecido. Solicita então aos seus milhares de astrólogos e adivinhos a ingrata tarefa de relembrá-lo do sonho, e ninguém se revela sequer capaz de tentar fazê-lo. Irado, o rei decide matar a todos. Daniel então intervém magnanimamente, e pede para poupar os sábios dizendo que revelará o sonho –e “de quebra”, ainda o interpretará!
O sonho trata de um gigante composto por cinco faixas metálicas, de cima para baixo: ouro na cabeça, prata no peito, bronze no ventre, ferro nas pernas e ferro-e-barro nos pés. Daniel declara então que são impérios, e que a cabeça dourada é o reino do próprio Nabucodonosor.
Passemos assim à algumas das interpretações mais conhecidas do tema, inicialmente relativa ao período antigo e depois algumas visões análogas modernizantes, incluindo a busca pela compreensão do sentido e da natureza destes conteúdos.

A desconstrução da Antiguidade Clássica

A exegese bíblica arrola então uma série de civilizações que vão concluir no tempo do Cristo: 1. Império Babilônico; 2. Reino Medo; 3. Império Aquemênida (Persa); 4. Império Grego; 5. Império Helenista dividido entre Ptolomeus e Selêucidas. A pedra destruidora seria o reino cristão que termina com o período da Antiguidade.
Tudo isto desdobra-se contudo em poucos séculos, não cabendo daí sequer numa exegese milenarista, como seria plausível à unidade estrutural representada pelo símbolo do gigante, sob o pano-de-fundo de ciclos conhecidos de “evolução” social de que trataremos aqui, para não descartar qualquer pertinência na interpretação de Daniel e na exegese bíblica tradicional.
Por isto, soa mais realista a interpretação posterior que inclui Roma e suas transformações, nestes termos: 1. Império Babilônico; 2. Reino Medo-Persa; 3. Império Helenista; 4. Império Romano; 5. Império Romano Cristão, onde o “ferro” ainda seria Bizâncio, e o “barro” seria a Roma do Ocidente se esfacelando. Aliás tudo isto é derrubado por uma grande rocha, que a nosso ver é o Islã.

À luz de uma visão mais ampla de Idades do Mundo milenares, a interpretação de Daniel seria reducionista, ainda que a Babilônia como tal fosse muito mais antiga (uma leitura de Idades do Mundo alternativa, permitiria transferir esta escatologia para os tempos atuais). Porém, para alguns o verdadeiro propósito da narrativa não seria bajular o rei ou oferecer alguma lição-de-história estrutural (embora a isto acabe se prestando, sendo de resto este um conhecimento bastante disseminado naqueles tempos), mas anunciar a chegada do messias ao final de tudo tendo o reino de Israel como pano-de-fundo e observador ativo de todo este processo de mudanças. 
No entanto, o messianismo pertence sobretudo aos contextos milenaristas emergentes ou construtivos. A desconstrução sociocultural apenas acidentalmente representa uma escatologia, uma vez que o messianismo integra uma resposta vinda através do Novo Verdadeiro e suas sociedades em construção. Contudo, como a exegese bíblica elegeu a partir de Daniel certa interpretação histórica, é dela que nós também partiremos.
Assim, para além da matemática e da precisão histórica, aquilo que realmente importa notar é a base sociológica desta sucessão de impérios, a única coisa que pode tornar o assunto algo semelhante ao conteúdo das Idades Metálicas milenares (mas que ocupa períodos muito maiores), e que este sonho também poderia representar num outro plano de considerações.
O tema dos ciclos civilizatórios pode ser complexo, porque existem analogias, subciclos, transições e ciclos paralelos. A rigor, o assunto pertence à tradição das Idades Metálicas, cujos ciclos são milenares e, em certos calendários, até mesmo multimilenares, abarcando daí sucessivos projetos civilizatórios, sejam tácitos ou planejados ou ambos. Contudo, permaneçamos por hora no tema do milenarismo estrito, organizado através de ciclos sociais (construtivos ou desconstrutivos).
Em defesa da exegese bíblica e profética, mas também conferindo conteúdo sociológico ao tema, lembramos a imagem brahmanista do Manu como fonte de emanação das castas, recebendo uma distribuição semelhante à do sonho de Nabucodonosor, salvo ser o tema hindu apenas quaternário -fora a existência dos párias, claro, os homens-sem-casta.

mosaico romano com suástica
A visão do Gigante Multimetálico como Civilizações mascara aquilo que o tema realmente significa: a realidade das transformações do mundo através de ciclos sociais, ou seja: exatamente aquilo que vem acontecendo na Europa durante o último milênio da civilização. A interpretação política tende a sugerir erroneamente algo apenas vagamente conhecido, como são as Idades Metálicas.
E um dos símbolos empregados desde a mais remota Antiguidade para esta dinamização, transformação e integração sociocultural, é o emblema “solar” da suástica ou da cruz-gamada em suas inúmeras variantes (laubaru, etc.), espécie de emblema de quintessência onde os quatro elementos acham-se em movimento como num vórtice em forma de hélices.

A rigor, o rei da Babilônia teve uma visão da chamada “Idade de Bronze” do grande ciclo civilizatório áryo, com sua própria sucessão de ciclos sociais impressos pela marca de impérios dispostos a fazer avançar a marcha da civilização, por assim dizer.
Expansão máxima do Império Romano em 117 dC 

Com isto, estamos sugerindo que esta “sucessão de impérios” representa também uma transformação social e a desconstrução cultural do universo antigo e clássico. Ora, muitos destes impérios possuíam históricos muito mais amplos do que expõe esta exegese bíblica (a começar pela própria Babilônia), representando cada qual um projeto civilizatório próprio milenar ou ainda mais, não obstante por vezes em desconstrução –em tese- face sua antiguidade. Salvo melhor juízo ou exceções, o próprio imperialismo político já seria, por si só, reflexo de uma fase decadente de civilização. Por outro lado, o imperialismo emerge como um elemento cultural bastante específico da raça-raiz árya que dominou este ciclo da humanidade, com sua cultura guerreira, idealista e aristocrática.
Então, a primeira coisa que deveria ser observada numa leitura axiológica do tema, é o conteúdo sociológico desta sucessão de impérios. Soa bastante evidente, neste aspecto, que existe neste quadro uma transformação de padrões culturais de base social.
Símbolo hindu
A desconstrução sociocultural integra os planos das Idades do Mundo –é bem como se fosse a sua “análise” mais detalhada-, sempre através das dinâmicas das quatro classes sociais e daqueles períodos mais ou menos anárquicos de transição, que se mesclam por sua vez com a sua (re)construção cíclica.O próprio conjunto das Idades está sujeito a um plano desconstrutivo maior, onde cada Idade também está regida por um plano social geral definido. No destaque abaixo, o plano contemplado pela visão de Nabucodonosor da Idade de Bronze, cujas características gerais são “burguesas”, ou seja: pró-humanista e pró-individualista.


Assim, as classes sociais são fractais das Idades, como acima se vê. Como as coisas são cíclicas e se repetem, sob o matiz próprio das Idades a que pertencem, é possível se inspirar no passado para edificar os novos momentos culturais. É o que tem ocorrido no milênio atual desde a Idade Média. O Medievalismo e o Renascimento evocam as Antiguidades; o Iluminismo e o Modernismo evocam os Classicismos. A reconstrução destes ciclos, pode ocorrer espontaneamente ou sob o colonialismo. Pois as nações e civilizações são como famílias, com país (imperialistas), mães (colonizadas), irmãos e irmãs mais velhos e mais novos, assim como todo tipo de parentela secundária. Ao final, apresentaremos também um estudo sobre as civilizações e culturas da recente Idade de Ferro ocidental, entre outras novas construções de transição.
Abaixo reproduzimos a sequência dos impérios da Idade Bronze, sob uma ótica sociológica, limitados a princípio somente a quatro (sem a quinta etapa de transição) para não dificultar a exegese:

1. Império Babilônico: cultura teocrática
2. Reino Medo-Persa: cultura aristocrática
3. Império Helenista: cultura burguesa
4. Império Romano: cultura proletária

Comentemos, pois, estas quatro etapas da desconstrução social antiga. 

O Novo Império Babilônico representa ainda um autêntico herdeiro da Alta Antiguidade teocrática, remontando a mais de 2 mil a.C. pela unificação da Assíria e da Caldéia, sucessores do antigo império acadiano, das próprias origens da civilização a par com o Egito, marcando-se pelo Código de Hamurabi e instituindo a escrita cuneiforme. Como tal, herda um quadro de valores mítico-religiosos e também astrológicos que serve de base muitas vezes ao politeísmo, reflexo do ecumenismo universalista das origens áureas, e que os babilônicos almejam restaurar contra certos rigores e dogmas arcaicos e o poder corrupto dos sacerdotes. Ao mesmo tempo, expressa a decadência deste ciclo original, já prenhe de idolatria e superstição, assim como a presunção pagã de “atingir o céu pela força”, donde o mito da Tore de Babel, que seria como uma espécie de ecumenismo raso pseudo-democrático, face o latente fanatismo de cada seita e a superstições que alimentam, contra o qual o deus de Israel se rebela destruindo o seu falso liberalismo de treva e ignorância e investindo contra o império que havia destruído o Templo hebreu e capturado a sua população.

Em seguida, o Reino Medo-Persa emerge com valor guerreiro e idealista, constituído por antigos “bárbaros” oriundos das estepes da Ásia Central. Os persas almejam debater-se tanto contra o fanatismo como contra a superstição, para restaurar o verdadeiro valor do espírito acima do culto formal e vazio de deidades já ociosas. A nobreza persa é atestada daí sob muitos aspectos, sobretudo pela própria luz das ideias inovadoras ou restauradoras, desde a sua escatologia de fogo e a astrologia espiritual, passando pelos cultos solares e ritos ctônicos, até autêntica abertura política e postura ecumênica de Ciro, o Grande que restaura o reino de Israel, influenciando tudo isto profundamente a ideologia hebraica e emergindo como um exemplo para a posteridade clássica monarquista, como atesta o “Ciropédia” de Xenofonte. Os persas vencem assim a Babilônia e seu universo cultural alcança o seu apogeu, vindo com ele a arbitrariedade e a prepotência natural aos poderes consolidados.

Ato seguinte, surge a ideia do humanismo mais a Ocidente. Reinos afastados estão nascendo com novos valores em pauta, dispostos a varrer paulatinamente com os valores arcaicos, aristocráticos ou obscurantistas. Um grito de liberdade soa desde a Grécia, desejando conceder ao cidadão comum palavra e direitos. Na Grécia, o escravo gozava de certos direitos sociais e regalias, assemelhando-se mais à servidão medieval, gozava de cidadania e podia até possuir função cultural como um professor, sendo que os filósofos os consideravam necessários. Nisto vale porém o direito da paz e da prosperidade “para todos”, assim como a democracia religiosa e laica. O grande adversário histórico é a própria Pérsia, herdeira não obstante de valores antigos como a tradicional divinização real. Os gregos renovam as artes através do naturalismo ou do realismo (o que representaria para os mais antigos, como também para os mais modernos, uma arte-menor), “superando” em parte o abstracionismo e o simbolismo considerado “elitista”. Tudo isto reflete um ideal de hedonismo e liberdades individuais, mais próprio das abundâncias e riquezas ocidentais. No século VI a.C. surge a Democracia, de caráter mais direto que a forma moderna e inoperante representativa de cultura-de-massas. No século III a.C. Alexandre, o Grande, leva os valores do helenismo para todo o mundo antigo, do Egito à Índia, difundindo pelo Oriente uma língua comum (koiné) e também práticas de educação e artes, quando emerge com força o comércio, sinal do apogeu de uma época do mundo. A grandeza do helenismo se deve, em grande parte, por representar os ideais do milênio “burguês” da Idade de Bronze, projetando-se assim sobre muitas nações do período. Realizando uma ponte entre Ocidente e Oriente, os gregos assimilaram importantes elementos culturais, tal como o alfabeto fenício que adaptaram difundindo-o depois. Sob o helenismo os judeus da diáspora traduziram a Septuaginta para o grego, base da difusão posterior da Bíblia no mundo ocidental, especialmente a partir de Alexandria, Egito. A força cultural do helenismo sobre os judeus se refletirá, contudo, com ainda mais força no contexto do Novo Testamento como revitalização judaica.

Enquanto isto, ainda mais a Ocidente, Roma está surgindo em meio a disputas tribais, e sua república surge já no século VI a.C., síntese das tensões entre os patrícios e a plebe. Não era rara a prática da monarquia eletiva entre os bárbaros, e esta tradição arcaica de democracia passou para a Monarquia romana e dali para a República. Comumente, o igualitarismo de uns apenas se faz à custa da opressão de muitos. Em Roma a escravidão se torna uma dura realidade, pois o escravo era uma propriedade do seu dono, como sucede numa típica cultura de Ferro. O escravo de Roma vinha de povos conquistados (geralmente tribais) e se destinava a servir materialmente, constituindo cerca de 1/3 da população do império; no final da República ocorreram muitas revoltas de escravos, sempre duramente reprimidas. Mas também houve ali escravos ilustrados atuando como médicos e arquitetos, vindos de povos dominados. É em Roma que se destaca, não obstante, a força do trabalho humano, erigindo obras para uma civilização, senão humana, ao menos humanista. A cidadania romana e o direito público alcançavam todas as populações que habitavam territórios dentro dos limites do império, podendo ser obtida por serviços prestados. Há muito os Fenícios se destacavam por suas atividades comerciais no Mediterrâneo, mas a certa altura Roma começa a almejar o controle do comércio da região e entra em disputa com Cartago vencendo-a. Desta hegemonia regional surgiu o império romano como decorrência natural, demandando o incremento da escravidão e a posterior decadência, como no período da anarquia militar quando todas as legiões queriam fazer os seus “imperadores”. Na orla oriental do Império, nasce o Cristianismo que séculos após vira a dominar Roma, uma “religião-de-escravos” no dizer aristocrático de Nietzsche, modificando radicalmente a ótica judaica tradicional.

Depois disto, ressurge aos poucos o Império Romano cristianizado, após se disseminar a nova religião entre os povos bárbaros, e onde o “ferro” ainda seria Bizâncio, e o “barro” seria a Roma do Ocidente se esfacelando. Aliás tudo isto é mais tarde derrubado por uma grande rocha, que representa o Islã, o qual aparece com efeito ao final do período bronzeo.

A construção de Israel

A desconstrução sociocultural observada, remete paralelamente a novas construções civilizatórias. A simples inserção imperialista no mundo modifica culturas e pode produzir novas sínteses, sobretudo quando emergem pari passu novos impulsos culturais e civilizatórios sob a marca do Destino ou da Necessidade.
A cronologia dos “impérios” aberta por Daniel, daria margem no máximo a um único projeto civilizatório completo –tácito, é verdade, neste caso-, influenciado por vários reinos coetâneos, no caso, o projeto da própria sociedade hebraica, tendo assim o povo hebreu como sujeito social em evolução, influenciado por sucessivos impérios, ainda que Israel anteceda o Novo Império Babilônico de Nabucodonosor.
Ou seja, se trata de uma construção histórica, nos moldes do que acontece hoje nas Américas (mais especialmente, a América do Sul), em contraste com a desconstrução social existente no último milênio de história ocidental (na Eurafrásia ou o “Grande Oriente”), sob uma simetria cronológica semelhante e avançando para o padrão-ollin de transição.

O “Grande Oriente” em mapa antigo simbólico: Jerusalém como axis mundi

Bem ou mal, o judaico-cristianismo têm na Bíblia uma respeitável crônica histórica da sua existência, ainda que em muitos pontos polêmica. Em certo sentido, as Escrituras estão na base do conceito ocidental de História e auxiliou a edificar a Civilização Ocidental, em função da preocupação criteriosa com o registro cronológico. Existem muitas camadas na Bíblia, algumas remontam claramente aos mitos, e muita coisa perdeu o seu sentido original.
Ainda assim Bíblia contém muita História real, porém é uma História escrita por e para o Povo Eleito. Qual seria então a origem dos hebreus, o que define afinal a missão da Nação de Deus? Analisemos a sua conjuntura histórica.
Abrahão era um egresso de uma das primeiras grandes cidades da civilização, uma região que a Bíblia identifica como o berço da Civilização e ao próprio Paraíso terreal.

Contudo, no tempo de Abrahão as coisas já estavam muito mudadas, e conhecia uma ampla decadência. O ciclo teocrático inicial da humanidade, que é a Idade de Ouro da Civilização, estava em queda, as religiões fundadoras haviam atingido um apogeu, cumprido o seu papel e agora se viam fragmentadas, sob um declínio ético voltadas para o fanatismo e à corrupção –a idolatria de que tanto fala o Deus dos hebreus.
A grande missão da família de Abrahão era restaurar, na medida do possível, a unidade espiritual, cultural e social, o que seria realizado sob um novo contexto aristocrático, isto é: filosófico, político e até militar. Tal era a verdadeira missão do ciclo histórico em que vivia o Povo de Deus. Daí também a necessidade do êxodo ou da migração, pois não se mostrava possível consertar já nada por ali. Cabia sair das cidades decadentes e idólatras, para regressar a um modo de vida mais puro, tribal e original.

Não que esta sociedade devesse permanecer para sempre nesta situação, porém um retorno ao estado mais primitivo seria considerado depuradora, tal como Moisés mais tarde manteve os hebreus no deserto por 40 anos a fim de conferir-lhe a tônica moral necessária para cumprir a sua missão histórica.
Como príncipe honorário e conhecedor dos segredos da civilização, Moisés deve a capacidade de observar com atenção o comportamento do povo hebreu, vendo nele os potenciais para uma renovação das coisas. Conhecera a história trágica de Akenaton, do qual era um secreto admirador, e agora enxergava no Povo Eleito uma tônica espiritual assemelhada.
A saga hebraica chegou a atravessar mil anos de história antes da última diáspora (dispersão). O mesmo Daniel conferiu o “ciclo” que tardaria para reconstrução do templo: 490 anos. E esse quadro se repetiu ao menos duas vezes: sob a Babilônia e sob Roma.* Neste ínterim, os hebreus puderam realizar a sua evolução sociocultural, apesar de nem sempre contar com um território livre ou próprio, o que poderia esperar um povo que migrou para outras terras, e vivia sempre numa corda-bamba política, podendo apenas sobreviver militarmente. O deus de Israel colocava claramente, porém, que o cativeiro era causado pela infidelidade do povo aos seus ditames. Israel não podia se dar ao luxo de ser infiel às austeras orientações dos seus profetas.

Os períodos de 500 anos sempre trazem grandes provações para as sociedades emergentes, e pode ser considerado como um verdadeiro rito-de-passagem para a maturidade social. No Egito, este ciclo era chamado de Fênix, quando algo perecia para se renovar.** É o que vive hoje a América Latina e até boa parte do planeta, onde não se enxerga formas de enfrentar a situação, fora de um quadro de heroísmo e martírio, entre outros experimentos que envolvam grande renúncia e abnegação, daí o símbolo da Fênix. A “fonte” do problema são, de um lado, as antigas sociedades imperialistas em desconstrução, que vivem ali um crescente materialismo, por vezes inoculando fortemente com suas ideologias as novas sociedades. A tarefa da libertação pode ser deveras complexa, daí a necessidade de guiança específica, para orientar sobre cada uma destas etapas culturais.
Esquematizemos, pois, esta possível construção sociocultural hebraica, observando daí a ordem inversa da evolução social em relação ás desconstruções culturais imperialistas:

1. Fase proletária: os assentamentos abraâmicos;
2. Fase burguesa: o período de prosperidade no Egito;
3. Fase aristocrática: a conquistas militar da Palestina.
4. Fase religiosa: a consolidação talmúdica.

Em todas estas etapas socioculturais, os hebreus estiveram fortemente influenciados por um ou mais impérios e reinos da região, tais como: Assírio, Egípcio, Babilônico Persa, Grego e Romano. E sua civilização emergiu em parte pela assimilação seletiva de suas influências, em parte pela emergência de um gênio próprio e inspirado.

Atualizações ocidentais
Laubaru - dinamização & integração
Tratamos daí a “sucessão de civilizações” assinalada no sonho do rei da Babilônia como um tema sócio-desconstrutivo, ou em termos de ciclos sociais meramente (análogos, é verdade, às Idades Metálicas do mundo ou das Raças-raízes), analisados dentro de uma única civilização efetiva e de uma única Idade do Mundo, o Oriente Médio e a Europa da Idade de Bronze que abrange a Baixa Antiguidade oriental e o Classicismo europeu.
Ainda assim, acreditamos ser possível comparar as dinâmicas políticas europeias do último milênio com aquelas do Médio Oriente de então, inclusive em termos de abrangência territorial. Tratam-se de caldos-de-cultura continentais e comuns, entre nações contemporâneas em contato contínuo e de mútua e direta influência histórica. Inclui-se nisto as respectivas influências sobre América Latina e a Palestina.
Um contexto ocidental transformador mais recente, tratará então de adaptar a visão de Nabucodonosor para as suas próprias questões:

O padre visionário Antonio Vieira ainda endossará uma interpretação mais tradicional: “Vio Nabucodonosor aquella prodigiosa estatua, que representava os quatro Impérios dos Assírios, dos Persas, dos Gregos e dos Romanos.” (“História do Futuro”)
Contudo, e como transição para os tempos atuais, Vieira resolve acrescentar Portugal no final, numa linha de ampla descontinuidade histórica, o que o poeta e filósofo Fernando Pessoa perceberá, alterando daí os impérios para conceitos amplos e apenas europeus, avançando assim em definitivo para a chamada “Idade de Ferro” da civilização árya, tivessem ou não os portugueses maiores intenções messiânicas -ou “sebastianistas”-, afinal se fundiu ali as profecias do Divino com as do Quinto Império.
No poema “Mensagem”, os quatro primeiros impérios segundo Pessoa são o Império Grego, logo o Império Romano, em seguida o “Cristianismo” e por fim a “Europa”. Trata-se não obstante ainda de uma forma polêmica: como distinguir nestes termos “Cristandade” e “Europa”? E, acaso não havia uma Europa antes do Cristianismo? Mais uma vez, temos uma mistura “explosiva” entre ciclos sociais e impérios.

Desconstrução sociocultural na Idade de Ferro Ocidental
Como se afirmou antes, conhecemos uma concepção de ciclos sociais (apenas análogo ao das Idades Metálicas, e não correspondente) desconstrutivos atualizados, depreendido do contexto ocidental pós-clássico -assim como uma visão construcionista pós-moderna novomundista. Contudo, nossa abordagem tende a ser mais social e cultural do que política, uma vez que a política está de certa forma subordinada aos fatores culturais.
Muitas vezes sequer existe um império único no mundo, mas vários, sobretudo num mesmo caldo-de-cultura. A Europa esteve envolvida sob uma cultura mais ou menos comum, e em algumas fases se fragmentou. Hoje existem inclusive dificuldades para a integração da Europa em função de questões culturais, uma vez que os países mais desenvolvidos são protestantes. Aqueles que possuem conexões históricas com a América Latina (e a Igreja Católica) e com a Europa Oriental (e a Igreja Ortodoxa), tem ficado algo à margem ou sofridos fortes reveses.
Neste caso, a tendência passou a ser pouco a pouco mais por “Guerras Frias” entre impérios coloniais e transcontinentais, e não sucessão de impérios “domésticos” propriamente europeus, dentro da política tradicional de matrimônios políticos entre casas reais.
Contudo, se fossemos propôs uma conexão política com estas fases sociais mais recentes, buscaríamos uma orientação mais ou menos nestes termos:***

Grandes Impérios Europeus do Milênio 
1. Sacro Império Romano-Germânico ............... Clero .............. “Pequena Idade de Ouro”
2. Império Ibérico ...................................... Aristocracia ...... “Pequena Idade de Prata”
3. Império Britânico .................................... Burguesia ........ “Pequena Idade de Bronze”
4. Império Soviético .................................... Proletariado ..... “Pequena Idade de Ferro”

A dinamização socioregional brasileira
Nesta interpretação europeizante, o “apêndice” do Milênio ou “Quinto Império” dividido poderá ser o próprio Império Soviético que representa, afinal, a moderna “cultura do ferro”, porém em sua forma dissoluta pós-moderna, disseminando a Anarquia pela Europa. Este é, todavia, um momento ainda por vir. E a pedra final, depois disto, seria novamente o Islã -ou mesmo algum novo reino messiânico?
Pergunta-se daí, a este respeito: - Seria possível ainda abarcar aqui Portugal–ou ao menos o português? A princípio, qualquer abordagem que envolva o Brasil deve ser computada dentro de uma nova ordem de coisas - o Brasil é a grande nação messiânica que emerge como pano-de-de-fundo desta moderna desconstrução, como uma Israel do Ocidente. Chegou a haver, é claro, um Império intercontinental homogêneo, como foi o Reino Unido de Portugal e Brasil, porém isto sucedeu noutro tempo. Quem sabe, culturalmente falando, esta correlação possa futuramente se inverter?

* Considera-se a possibilidade de Abrahão ter vivido em torno do século XIX a.C., ao passo que Moisés, com maior segurança, teria vivido em torno do ano 1200 a.C. Entre Abrahão, Moisés e Nabucodonosor há portanto sempre 500 anos, e um pouco mais até a diáspora romana. Contudo, nossa presente análise da história judaica se limita a cerca de mil anos de história mais provável, desde o período dos assentamentos hebreus na Terra Prometida que antece a ida para o Egito.
** O ciclo Fênix se aproxima do baktun mais de 400 anos, e até lhe corresponde se consideramos os fractais de transição. Vale notar que a lenda da Fênix reza que a ave mística coloca três ovos antes de morrer, pois o ciclo sótico (ou de Sírio) da Grande Renovação ocupa 1.461 anos (aproximação com as Idades divinas joaquinitas?). Outro calendário egípcio divide porém o ciclo sótico em quatro partes de exatos 365 anos –os antigos davam muito valor para estas analogias-, o que também se aproxima do baktun.
*** Cabe entender as propostas sem muito literalismo, especialmente em termos de cronologia. O “Império Ibérico” refere-se aqui não às Coroas Unidas de Portugal e Espanha, mas sim ao período de maior poderio das duas coroas, que formaram os primeiros impérios coloniais europeus.

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* Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
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